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A desindustrialização brasileira

Por:  Daniel Arruda Coronel e Reisoli Bender Filho*

Nos últimos anos, economistas como Bresser-Pereira vêm levantando a hipótese de que a economia brasileira estaria passando por um processo de desindustrialização, o qual é determinado pela perda persistente de participação tanto na composição do emprego quanto do Produto Interno Bruto (PIB). Entretanto, esse processo pode ocorrer devido a um conjunto diverso de fatores, sendo eles tanto internos quanto externos.

Dentro dos fatores internos, conforme discute Bresser-Pereira, os países desenvolvidos, a partir de certo nível de renda per capita, começaram a se desindustrializar, devido à concorrência de países onde a mão de obra é mais barata. Como consequência, esses países deixaram de produzir bens industriais, especialmente de baixa tecnologia, transferindo sua mão de obra para setores de serviços com maior intensidade tecnológica e níveis de renda e de valor adicionado per capita mais alto, portanto, com salários médios mais altos. Quando o processo ocorre dessa forma, a desindustrialização não se torna prejudicial. No entanto, em países como o Brasil, onde a renda per capita é baixa, esse processo de transformação estrutural estaria ocorrendo de forma prematura ou, como definido em parte da literatura, seria um processo de desindustrialização precoce.

A natureza dessa discussão está no fato de a indústria de transformação, em meados da década de 1980, representar cerca de 25% do produto total gerado pela economia, passando para uma participação não superior a 12%, em 2012. Salienta-se que, nos anos de 1980, os produtos industriais eram majoritários na pauta exportadora, ao passo que, atualmente, representam menos de um terço. Essa mudança vem se intensificando pelo aumento acelerado do preço das commodities agrícolas e minerais dos últimos anos, produtos em que o Brasil detém vantagem competitiva e exporta em grande quantidade. Diante desse cenário, a entrada de reservas internacionais provocada por essas exportações aprecia a taxa de câmbio e, como resultado, os produtos industriais encontram cada vez maiores dificuldades para competir com os produtos importados.

Porém, mesmo que esta hipótese não seja consensual na literatura econômica, cada vez mais encontra defensores nos meios acadêmicos e políticos devido a questões como o aumento das exportações de produtos primários, a apreciação da taxa de câmbio, as altas de juros e a redução da participação da indústria no produto e no emprego agregado total, questões estas oriundas de fatores como política de estabilização, taxas elevadas de juros e a abertura desordenada da economia brasileira no início da década de 1990, o que determinou que este processo se acelerasse de forma abrupta na economia brasileira.

Independente de o país estar passando ou não por um processo de desindustrialização, o que é indiscutível é o que setor industrial precisa urgentemente de medidas e ações visando aumentar a sua competitividade. Tais ações poderiam estar consubstanciadas em uma ampla política industrial e de comércio exterior, somada a uma política macroeconômica consistente e de longo prazo.

Neste sentido, alguns pontos devem ser considerados, tais como a redução dos custos de transação, melhoria das condições de infraestrutura e de logística, aumento dos investimentos públicos e privados, diminuição da carga tributária e das taxas de juros, desvalorização cambial e ações visando aumentar a inovação tecnológica. Caso estes fatores sejam superados, o que não é um desafio fácil, o setor industrial passará ainda mais a ter um papel estratégico para a balança comercial e para o crescimento econômico.

(Publicado em A Razão de 04.06.2013)

* UFSM



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