Artigos

A respeito dos médicos

Por:  Nilton Bertoldo*

Os prazeres inteligentes são escassos demais para que nos neguemos este: iniciemos com um pensamento de Pascal, difícil de entender bem e muito elucidativo, como ele gosta.

Nos Pensamentos – é o fragmento 87 da edição Lafuma e um dos raros que se refere aos médicos -, Pascal escreve o seguinte: “O chanceler é grave e coberto de atavios. Porque seu cargo é falso. Mas não o rei: ele tem a força, não tem por que se importar com a imaginação. Os juízes, médicos, etc., só têm a imaginação”. Pascal não gosta muito de explicar. Basta-lhe compreender. Tentemos, por nossa vez.

O chanceler é grave e coberto de atavios: são os atributos imaginários do poder, seus simulacros, tanto mais necessários aqui por faltar o poder real (a força). O chanceler finge ter poder. O rei, ao contrário, porque tem o poder efetivo, pode prescindir dos signos ou das máscaras deste: somente os fracos fingem ser fortes; somente os fortes não têm por que parecer fortes.

Por conseguinte, se os médicos, na época de Pascal, “só têm a imaginação”, podemos concluir que deviam se parecer mais com o chanceler do que com o rei; em outras palavras, que eles também deviam fingir. Fingir terem o poder? Ou fingir saberem – do que tiravam o pouco poder de que eram capazes. Sabe-se que era de fato assim: são como os médicos de Molière, doutos de grande aparato e pouca ciência!

Pascal não se deixa iludir: “se os médicos não tivessem sotainas e mulas”, escreve ele em outro fragmento, “e, se os doutores não tivessem barretes e togas bem amplas de quatro abas, nunca teriam enganado as pessoas, que não podem resistir a essa ostentação tão autêntica. Se os médicos tivessem a verdadeira arte de curar, não teriam porque se importar com barretes. A majestade dessas ciências seria assaz venerável por si mesma, mas como só têm ciências imaginárias eles têm de usar esses vãos instrumentos que impressionam a imaginação com que se avêm e com isso, de fato, atraem o respeito.” Resumindo, os médicos são graves e cobertos de atavios...

Olhamos para povo. Sabe-se que existem médicos suficientes... mal distribuídos. Vemos a gravidade, há que dizer que o tema se presta a ela. Mas onde estão os seus barretes? Onde estão as suas togas? Onde estão os seus atavios? A verdade é que os atavios faz tempo que cederam o lugar aos instrumentos. Um estetoscópio não é um penduricalho.

Um tomógrafo não serve (ou não serve primeira e principalmente...) para impressionar a imaginação. Aqui não é mais necessário fingir. Não é mais necessário usar os atributos ornamentais de um poder imaginário. Alguma coisa deve ter mudado desde Pascal e Molière. O poder dos médicos sem dúvida não é mais falso, pois parece que, como o rei de Pascal, não temos por que se importar com a imaginação. Porque os médicos têm a força? Não, justamente, é isso que nos leva ao essencial. Se eles não necessitam mais dos atavios de um poder imaginário, não é que eles têm o poder real, o da força, como diz Pascal, é que eles têm o poder do saber: a medicina, e desde há pouco tempo, como se sabe, tornou-se científica. Mas o saber é um poder? E, se for, que relações ele mantém com os demais poderes? Eis, no fundo, o problema sobre o qual gostaríamos de refletir e debater brevemente diante dos que se dizem nossos representantes - meus é que não são! – os políticos, com os políticos.

(Publicado em A Razão de 06.08.2013)

* UFSM



Compartilhe com sua rede social!

© 2017 SEDUFSM
Rua André Marques, 665 - Centro, Santa Maria, RS - 97010-041
Website por BM2 Tecnologia em Internet