Artigos

O molusco reaparece

Por:  Nilton Bertoldo*

Esta crônica é uma peça ficcional. Qualquer semelhança com fatos e pessoas vivas ou mortas, é mera coincidência.

O molusco nove dedos, objeto de outra crônica neste espaço, deu as caras de novo. Desta feita, numa republiqueta de bananas no sudeste asiático, conhecida como Costa Pobre. Como molusco não tem cérebro e, portanto, incapaz de raciocinar, parece que o mesmo evoluiu para gorila, um primata ancestral nosso com cérebro pesando 400g; em suma, de idiota, mas muito mais perigoso, pois a sua massa encefálica, com poucas circunvoluções, poucos sulcos e estes, quando existentes, de pouquíssima profundidade, torna-o extremamente burro e nocivo à sociedade que o cerca.

O sujeitinho saiu do nada, nunca trabalhou, militava em determinados movimentos de massa cujos dirigentes pagavam sempre suas contas que não eram poucas. Apesar de asno e ignorantão, gostava de mordomias e estas bem caras. Sempre estava à espreita para conseguir algo valioso para si e para seus pares; a família dele seguiu-se-lhe os passos. Muitos haviam enriquecido da noite para o dia, graças a favores, trambiques e maracutaias. Fala-se que comprava pessoas a peso de ouro. Porém, como tinha memória fraca - se é que a tinha – nunca sabia de nada.

Em sua terra natal, outro minúsculo país de araque do extremo oriente, com milhares de analfabetos, asnos, ignorantes, mirmidões, cataplasmas, xaropes, purgantes, iguais ou piores do que ele, o molusco já estava quase esquecido, pois era portador de uma doença incurável em fase avançada, terminal. Eis que ele ressurge, para variar, em novo esquema de corrupção – aliás outra característica sua – numa tal de Costa Pobre. Ainda bem, que o povo daquele país, conhecendo bem a história da figuraça, o molusco, pressionou os seus representantes (?) num tal de Congresso e também o rei deles, com a finalidade de anular tudo o que ele havia feito em conluio com os poderosos.

Este ogro com aparência de janota, inofensivo de pizzaria, sempre fora uma boçalidade militante em certos nichos de vagabundagem ideológica. Como seus parceiros, que chafurdavam na lama do opróbrio, da torpeza e da objeção, era também um mímico intelectual, pois amava tanto glórias e honrarias, que percorria continentes atrás delas. Havia um título que ele adorava – um tal de “Coco Onores Cauza” – oferecido por muitas republiquetas da Antiguidade Clássica a personagens com pouca ou nenhuma qualificação intelectual, analfabetas ou semi-alfabetizadas, populistas, mentirosas, enganadoras e mal-intencionadas, simulacros de gente. Quando as descobria, lá estava o molusco recebendo a honraria.

Se nessa época tivesse vivido o contista russo Aleksandr Púchkin, dotado de uma capacidade ímpar de criar gêneros literários ocidentais, certamente um de seus personagens, Griboiédov, do conto “Viagem a Arzrum” diria ao molusco: Vous ne connaisser paz ce gens-là; vous verrer qu’il faudra jouer des couteaux (“Você não conhece essa gente; verá que vai ser preciso recorrer às facas”). Griboiédov acreditava que a razão para um derramamento de sangue seria a morte do Xá e a luta interna entre seus setenta filhos. Mas o Xá ancião permaneceu vivo e as palavras de Griboiédov se cumpriram pois este pereceu pelas adagas dos persas, vítima da ignorância e da perfídia.

(Publicado em A Razão de 09.09.2013)

* UFSM



Compartilhe com sua rede social!

© 2017 SEDUFSM
Rua André Marques, 665 - Centro, Santa Maria, RS - 97010-041
Website por BM2 Tecnologia em Internet