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Florestas de sangue

Por:  Althen Teixeira Filho*

Diamantes são gemas das mais preciosas, alvos de desmesurada cobiça, ganância, insanidade, atrocidades. Por tal, nominam-se como diamantes de sangue os obtidos pela mineração engendrada através das desestabilizações sociais em alguns países, como a guerra civil ocorrida em Serra Leoa (África). Os mercenários a serviço da ambição sequestraram e estupraram mulheres, transformaram crianças em soldados, amputaram braços e pernas de civis, além de relato de canibalismo.

Não muito diferente disso é a demência humana que escalpela o mundo de suas florestas, numa avidez descontrolada que despreza a vida humana, animal e o ambiente como um todo. Os biomas do mundo são explorados sob a mesma perspectiva dos financiadores e guerreiros leoninos, gerando o que agora e aqui definimos de "florestas de sangue".

No Brasil restam de míseros 5% a 8% do Bioma Mata Atlântica, o qual, com sua flora e fauna exuberantes, adornava e vivificava do Ceará ao Rio Grande do Sul. O cerrado é o segundo maior ecossistema brasileiro sob intenso ataque do agrobusiness e das carvoarias. Estudos já anteveem o final da nossa caatinga e o próprio meio ambiente, adulterado, flagela a região nordeste com uma seca histórica, impondo recorrente sofrimento aos mais pobres. São sempre esses as maiores vítimas em todo o mundo!

O Bioma Pampa, de onde escrevo, já perdeu aproximadamente 54% da sua cobertura vegetal natural. Entre 2002 e 2008, mais de 36.400 hectares de área nativa foram devastados, parcela destinada aos "reflorestamentos" das papeleiras. Entre os que defendem tais lavouras de destruição têm-se políticos que se refestelam com soldos eleitorais deste setor. Pouco lhes importa o desemprego, abandono do pequeno agricultor ou destruição do meio ambiente e, quando mercenários eleitos, vão legislar em benefício de seus "patrões". Em outro extremo do Brasil a floresta amazônica tem suas árvores amputadas há décadas.

Em 1977 percorri parte desta como participante do Projeto Rondon. Numa das incursões viajávamos à noite quando alguém disse: "olhem a luz da cidade, já estamos chegando". O motorista, habitante local, respondeu com um sorriso: "aquilo não é cidade, é uma queimada!" O serpenteio da estrada levou-nos para mais perto do sinistro e, calados ante o espanto da cena, imaginávamos as dezenas ou centenas de animais carbonizando em pavor e agonia pelo fogaréu. Mesmo ao longe ouvíamos o estalar das árvores, verdadeiros gritos de socorro pelo suplício que purgavam. Altas línguas de fogo se contorciam, chicoteavam e lambiam profundamente a noite num espetáculo macabro, enquanto nos perguntávamos em silêncio e espanto: por quê?

Aquela era uma "estação do ano" criada pelo homem e tratada com absoluta naturalidade. Não era primavera ou verão - era queimada! Eram piras de matança! A "chuva" que durava dias era de cinzas das árvores incineradas, algumas tão descomunais que só cabiam uma árvore por vez nos caminhões de transporte. O féretro negociável de madeiras era intenso e diário.

(Publicado em A Razão de 01.10.2013)

* UFPel



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