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Quem somos?

Por:  Nilton Bertoldo*

O Brasil encerra uma categoria de sujeitos que vieram à luz sem o cartão laureado de fazer parte das classes média e alta. A vantagem efetiva da hipotética inteligência excepcional conata dessas ordens é metamorfoseada em prerrogativa nula de todo um grupo social que se gera e se procria como hierarquia de cidadão com um labéu nado.

A autenticação da diferenciação no Brasil atual não se correlaciona com a cópia fiel de um pretérito remoto, seja da escravaria ou da moléstia de procedência lusa, origem de uma fictícia indolezinha brasílica pré-hodierna.

Longe disso, ela é reproduzida diariamente por recursos modernos, exclusivamente alegóricos, muito diversos do azorrague do amo de escravos ou da influência particular do proprietário do lugar e do povo.

Enquanto a sociedade brasilense não tomar consciência desta porfia, seremos sempre hodiernos para aparentar, uma modernice perrengue, iníqua, mediocremente econômica e diversa.

A percepção percuciente dessa categoria de despojados, enquanto classe, requer uma visualização essencialmente original das questões principais que arrostam o Brasil como sociedade, a encetar pela desorganização do manipanso economicista como entendimento preponderante, e pela divulgação dos interesses às ocultas da metamorfose do corrompimento político no nosso hipotético dilema principal.

O romanceamento da política, com os fatos imorais se amiudando, e a percepção reducentemente economicista do orbe, são os rudimentos essenciais da penúria do debate público brasiliano. Expor sua hipocrisia é dar oportunidade para um entendimento novador e crítico da Terra de Santa Cruz contemporânea.

Melhor seria abstermo-nos de nos apreciar como economia, pela grandeza do nosso Produto Interno Bruto (PIB), e principiar a nos ajuizar como sociedade, pelo modo como procedemos com os outros.

Faz-se mister lembrar o raciocínio luzeiro de Pierre Bourdier: “A sociologia talvez não merecesse uma hora de esforço se tivesse por finalidade apenas descobrir os cordões que movem os indivíduos que ela observa, se esquecesse que lida com homens, mesmo estes, à maneira das marionetes, jogam um jogo cujas regras ignoram, em suma, se ela não se desse a tarefa de restituir a esses homens, o sentido de suas ações”. E o lume de Celso Furtado: “A doença grave do Brasil é social, não econômica”.

Para exemplificar, alguns modelos da ceguidade da percepção economicista do mundo. Consiste em rigorosamente não ver o primordial, que é o deslocamento de princípios impalpáveis no estresimento das classes sociais e de seus privilégios no tempo. Consiste em não perceber que, mesmo nas classes elevadas que açambarcam o poder econômico, os filhos só terão a mesma vida privilegiada dos genitores se no legado estiver o modus vivendi, a lógica para se comportar em eventos sociais, o que é assimilado precocemente devido aos hábitos familiares: tomar conhecimento do que é esmerado, a não se botar nos chifres da Lua, a não ser arigó-da-vazante ou sambanga na demonstração do fausto e, muito menos, comportar-se como ripanço.

Essa aprendizagem denota que apenas o jibungo, per se, não confere a quem o tem, aquilo que diferencia o abastado entre os ricaços. É o legado palpável, mesmo nesses tipos de divisões de categorias, em que a opulência é o alicerce de todo o privilégio, que vai permitir esponsais proveitosos, camaradagens duradoiras e acesso aos potentados que tornarão possível a reprodução superlativa do próprio patrimônio.

(Publicado em A Razão de 25.10.2013)

* UFSM



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