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João Goulart e a democracia

Por:  Daniel Arruda Coronel*

No dia 14 de novembro de 2013, o governo brasileiro prestou uma homenagem ao ex-presidente João Belchior Marques Goulart (Jango), concedendo honras de Chefe de Estado ao seu esquife, o que deveria ter sido feito em 1976, quando de seu falecimento, mas, por determinação do regime autoritário que prevaleceu no país até 1985, João Goulart foi enterrado como um mero brasileiro, sem as devidas honras e homenagens devidas a um ex-presidente da República.

João Goulart assumiu a presidência do país após a renúncia de Jânio Quadros, mas quase viu seu mandato evaporar, se não fosse a ousadia e a bravura do ex-governador Leonel Brizola, ao liderar o Movimento da Legalidade, o qual visava o respeito à ordem e à Constituição, ou seja, a posse de Jango.

Goulart foi um dos governantes que mais se preocuparam com a construção de uma estratégia de desenvolvimento econômico, o qual visasse reduzir as disparidades econômicas e sociais, a reforma agrária, a defesa do capital nacional em detrimento do capital internacional e reformas urbanas e no sistema educacional. Sua equipe ministerial contava com nomes como os de Celso Furtado e Darcy Ribeiro.

As propostas e as ideias reformistas de Goulart foram rotuladas de comunistas pelos setores reacionários e entreguistas do país, os quais articularam, de maneira sórdida e com o apoio tácito do governo americano, a sua queda.

No dia 31 de março de 1964, os setores mais retrógrados da política brasileira, liderados pelo Marechal Castelo Branco e pelo General Mourão Filho, organizaram a deposição de Goulart, e iniciou-se no país a Ditadura Militar, que matou, torturou e deixou como legado uma mancha de sangue na história política brasileira.

Após o golpe, Goulart exilou-se no Uruguai e, posteriormente, na Argentina, onde veio a falecer, em 1976, de uma maneira que até hoje gera controvérsias, visto que há fortes indícios de que o ex-presidente tenha sido envenenado como parte das estratégias da operação Condor.

A exumação de seu corpo e a necropsia que será realizada talvez permita identificar a verdadeira causa de sua morte, ou seja, natural, como foi atestado na época, ou como mais uma mancha dos regimes ditatoriais do Conesul.

Independentemente da conclusão e das investigações sobre sua morte, o gesto simbólico do governo brasileiro de prestar honras de Chefes de Estado a seu esquife é uma forma das instituições republicanas começarem a passar a limpo a história e dizer que abominam e odeiam os valores antidemocráticos e autoritórios, os quais foram responsáveis pelo exílio e sofrimento de um homem, o qual tinha, como poucos, uma consciência e ações que visassem ao desenvolvimento do país. Com certeza, o Brasil que João Goulart queria era de liberdade política, de famílias assentadas, de crianças nas escolas, de famílias brasileiras com melhores condições de higiene, saúde, habitação e moradia, o que o regime que o depôs não soube fazer.

(Publicado em A Razão de 19.11.2013)

* UFSM



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