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De qual democracia falamos?

Por:  Alcir Martins*

Recentemente, uma sessão do Conselho Universitário foi interrompida por uma procissão barulhenta, animada e bem posicionada que batucava por todos os cantos da cidade há dias, retumbando palavras de ordem em defesa do SUS, da gestão pública, da autonomia universitária e contra a privatização.

O ato foi saudado como festivo por alguns, como intempestivo por outros e, pasmem, como autoritário por outros, principalmente os próximos à atual Administração. Nosso quase ex-Reitor, com a total concordância do nosso quase Reitor, afirma que defendeu a democracia quando optou por refugiar-se em uma sala, cercado por apoiadores e interessados na privatização do HUSM com a adesão à EBSERH.

(Publicado no Diário de Santa Maria de 18.12.2013)

Se quisessem defender o fiapo de democracia que reside no Conselho, teriam tentado uma nova reunião, uma outra forma de consulta aos conselheiros. Se quisessem verdadeiramente defender o HUSM, há muito tempo estariam do lado de cá, exigindo recursos e concurso público e não se deixando passivamente enrolar pela chantagem federal que precariza e reduz a capacidade dos HUs com a manifesta intenção de jogá-los na órbita privatista.

As concepções de democracia explícitas nas manifestações dos Reitores (o quase ex e o próximo) e do seu fiel séquito me lembram de uma história contada pelo Eduardo Galeano, jornalista e escritor uruguaio. Dizia ele ter ouvido uma conversa de dentro de uma cozinha. Nela, um cozinheiro perguntava a uma turba de frangos, perus, faisões e outras aves sobre qual o tempero com que gostariam de ser colocados no forno, assados e comidos. Lá pelas tantas um humilde frangote ousou levantar a mão – ou a asa - e dizer que não pretendiam ser comidos de forma alguma. O cozinheiro, com olhar dissimulado, respondeu: “Isso não está em questão, de maneira nenhuma” e tacou-lhe o cutelo, preparando a ceia que seria o banquete de alguns.

Assim também foi na UFSM dos últimos dias. Algumas humildes vozes ousaram afirmar que não há apenas uma saída para melhorar a gestão do nosso HUSM. Ousaram questionar o pensamento único e os pórticos estreitos do Conselho Universitário. A resposta ao fim e ao cabo foi a revelação indiscutível que os desejos que antecederam a adesão do HUSM à EBSERH não eram por mais democracia nem por melhores condições de atendimento para a população. Eram por mais mais dividendos e por mais negociatas. Entre a nossa história e a história das aves na cozinha, a única diferença é que o cozinheiro manejava o cutelo, enquanto aqui, o Reitor usa a caneta.

* UFSM



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