Artigos

A estupidez humana (II)

Por:  Nilton Bertoldo*

Quanto mais a riqueza se acumula num ponto, a decadência e a miséria abundam alhures, em proporção harmoniosa. Enquanto os banqueiros enchem as burras, a plêiade dos desempregados, dos sem-teto e dos sem-terra triplica. Enquanto constroem-se estádios para uma tal de Copa do Mundo, não há dinheiro para a saúde, segurança e educação, os alunos aprendem cada vez menos, e podem se tornar maus cidadãos, presas fáceis para as maltas de bandoleiros, para as fileiras dos criminosos e perene mercado para as atividades mais indignas.

Se certos caciques políticos, alguns empresários, determinados banqueiros, eleitores e cidadãos, em geral, tivessem sido apenas melhor informados, mais bem educados, menos receosos, menos envenenados pelas drogas, mais previdentes e mais completamente conscientes da espécie de mundo em que se habita e do povo que aqui vive, poder-se-ia ter feito muito mais com as incomparáveis oportunidades. Poder-se-ia não estar, agora, naufragando nos mesmos caminhos cediços e inúteis do Velho Mundo que, à proporção que afunda, se dirige como um animal cego e ferido, cada vez mais para baixo, até os mais recônditos marnéis.

Haverá alguém que o negue? Se houver, não se conhece. O Brasil se imagina errado porque o povo está errado? Bem, que há com ele? Falta de religião, má educação, emoções perversas, saúde deficiente, tradições vazias, corrupção de costumes e de maneiras, superstição, pobreza, ignorância? Ou algo que ninguém suspeitou até agora? Certamente alguém deve responder à pergunta. Enquanto não forem esclarecidos os impulsos, as causas e a natureza das muitas faltas, não será possível remediá-las; seria como um médico receitar, às cegas, para pacientes que nunca viu.

Portanto, o próximo empreendimento da raça humana deveria ser a análise de si própria, começando com a busca das influências predominantes na destruição e decomposição da ordem econômico-social. Primeiramente, dever-se-ia estudar a ignorância humana, a má vontade dos políticos em promover mudanças radicais ou alguns erros que têm as suas raízes nas instituições sociais. Entretanto, prefere-se, amiúde, a estupidez, pois parece estar na base de todos os outros e espalhar, mais longe e com mais sutileza, o seu vírus. Um inquérito completo sobre indivíduos estúpidos e sobre seus atos se tornou necessidade de Estado, Mas, nenhum estadista – se é que existe algum no Brasil – lhe dará a menor atenção, pois isso não dá votos, pelo contrário, volta-se contra ele mesmo! Entretanto, os cidadãos – a maioria – que evitam certos políticos como evitariam uma enfermidade altamente contagiosa, poderiam estar curiosos de saber um pouco mais sobre o assunto.

Os cientistas – e ninguém mais! – descobriram e inventaram tantas coisas revolucionárias durante as últimas gerações, que hoje, quando se está na segunda década do século XXI, encontra-se a raça humana diante de duas grandes crises: uma é a crise do melhor, a outra a crise do pior. Cada crise se estende por dez ou mais campos do esforço humano. Ela é encontrada nas escolas, nos hospitais, nas entidades privadas para o combate à pobreza, ao sofrimento e à ignorância, na política nacional, especialmente no que respeita à conquista de novas áreas para o excesso de população; o contato com o vasto mundo subterrâneo do crime; no esforço para combater o desrespeito à lei; no esforço para substituir o fanatismo por uma legislação sã; na luta pela solução do “desemprego técnico”, e, talvez acima de tudo, no esforço – até agora frustrado – para curar a política da democracia, completamente afetada pelas peçonhas do mal ciclópico. A nação brasileira já sofre, há décadas, um sério e agudo desequilíbrio em dois pontos: possui um excesso de mentes de primeira e de segunda classe, em relação aos postos que utilizam as suas altas habilidades; e também tem uma quantidade aterradora de estúpidos e humanescos, em relação aos postos que utilizam as suas habilidades inferiores. Está na hora de se interromper isso!

(Publicado em A Razão de 11.02.2014)

* UFSM



Compartilhe com sua rede social!

© 2017 SEDUFSM
Rua André Marques, 665 - Centro, Santa Maria, RS - 97010-041
Website por BM2 Tecnologia em Internet