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A Estupidez Política

Por:  Nilton Bertoldo*

Su Tung-po foi um famoso poeta chinês e um dos mais distintos predecessores do estudo do comportamento humano. Nasceu em 1036 e morreu em 1101. Originário de uma família de literatos, durante a Dinastia Sung e ocupando vários cargos oficiais, escreveu poemas assaz simples baseados na filosofia budista. Durante sua vida, conheceu as delícias da paternidade, representando, por meio da escrita, um poema sobre o nascimento do filho, as seguintes linhas:

“As famílias, quando lhes nasce uma criança, desejam que ela seja inteligente. Tendo desgraçado toda a minha vida pela inteligência, espero apenas que a criança seja ignorante e estúpida. Assim poderá coroar uma vida tranquila fazendo-se ministro."

(105, On the Bird of his Son, traduzido por Arthur Waley).

A estupidez política abarca muito mais do que a falta de inteligência, de discernimento, de inúmeros políticos. Ela surge, sob certa forma, entre as grandes massas, sob outra, entre pequenos empresários, sob uma terceira, entre intelectuais e profissionais liberais, sob uma quarta, entre os capitães dos grandes conglomerados industriais e das finanças e, sob uma quinta, entre os próprios políticos. Não pouca confusão tem surgido pelo fato de não se distinguirem esses tipos quanto aos negócios do governo.

No que diz respeito à classe política, há muita gente ainda que a defenda , sob certos aspectos, dos seus críticos. Realmente, entre os partidos políticos e as suas igrejinhas, encontram-se muitos aproveitadores da prosperidade, miríades de corruptos, bandoleiros e malandros, sem falar nos incontáveis parasitas do progresso. Mesmo assim, um sem número de legisladores está acima da acusação de corrupção. E a despeito de todos os sinais em contrário, a sua inteligência, relativamente à dos votantes que os elegem, e, mesmo relativamente à dos plutocratas que os controlam, não é muito inferior. Como explicar, pois a sua conduta?

Muito simples! As suas tarefas são grandes demais para eles. Bastante coisa pra ver, ouvir, debater, discutir, pensar! Muitas decisões importantes para tomar rapidamente! O ser humano foi selecionado, durante o último meio milhão de anos, primariamente, com vistas à sobrevivência e ao sucesso do indivíduo e da família. Não mais do que 15 mil anos se passaram desde que pequenas sociedades foram, pela primeira vez, tornadas possíveis, pelo descobrimento da agricultura primitiva. Durante 450 mil anos da humanidade, ou mais, antes do primeiro ato de plantar sementes em solo preparado e esperar pela colheita, todos os homens vagavam pela superfície da Terra à caça dos rebanhos errantes e dos frutos maduros que encontravam pelo caminho. Não tinham lar, nem Estado, nem lei – na acepção moderna desta palavra. Os rigores do ritual, que ainda agrilhoam muita gente, ainda não haviam surgido, pois nem havia instituições permanentes, tampouco sinecuras, prazeres, filosofia, teologias, etc. Mesmo a língua desses nômades era sem fixidez – e cada geração construía seu próprio vocabulário de maneira atualmente impossível, exceto entre os nômades que ainda restam em algumas regiões isoladas do mundo. É de se estranhar, pois que as nossas sensibilidades não marchem em compasso com as complicações de um mundo que é muito mais complexo do que aquele em que viveram os povos primitivos e ainda vivem os nômades?

(Publicado em A Razão de 22.02.2014)

* UFSM



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