Artigos

Avenida Rio Branco e a estética da repressão

Por:  Luiz Carlos Nascimento da Rosa*

Queria escrever sobre flores, aromas, pássaros e a harmonia estética que este conjunto forma com o rodopiar manso da lua cheia. Teria prazer e minha tarefa seria a descrição lírica da vida. Os acontecimentos históricos de nossa Santa Maria, no ontem, remetem-me a uma análise crítica dos acontecimentos. Em lugar da lua, polícia e, em vez do lirismo, repressão. Falarei da Avenida Rio Branco e na Estética do medo que se materializou em nossa polis.

De um lado, a repressão do Estado, a defesa radical do sistema do capital com balas de borracha, cassetetes, bombas de efeito moral, armas de fogo, coletes à prova de bala e, por outro, cidadão de bem algemado, subjugado e jogado ao chão como persona non grata à vida e via pública. Cena patética! Agentes da Segurança Pública, com um imenso arsenal bélico, reprimindo e agredindo estudantes e trabalhadores, que estão na rua, em luta pela defesa, apaixonada, de seus direitos políticos e cíveis.

Na vida egoísta do capitalismo, o empresariado do transporte coletivo, pode, de forma descarada, engordar suas contas bancárias com a exploração do trabalhador. O poder público municipal monta uma panaceia política ao divulgar planilhas dos custos, para o empresário, com a frota do transporte coletivo. Para os movimentos sociais, de Santa Maria, o engodo começa com a formação do Conselho Municipal de Transporte Urbano, onde sua constituição se dá com maioria absoluta de representantes do poder executivo e dos empresários.

Historicamente, as planilhas dos custos do transporte urbano têm se constituído como verdadeiras caixas pretas, onde a ATU, que é uma instituição empresarial, e a Secretaria de Mobilidade Urbana conhecem e manipulam.

Nosso exercício político, através dos movimentos sociais, exige qualidade no transporte coletivo, transparência e o controle social das planilhas dos gastos. O comandante da “operação” foi infeliz quando afirmou: “as balas de borracha e a bomba de gás são para esses casos, para preservar ao máximo a integridade física das pessoas”.

Triste, truculento e nefasto tempo em nossa História. Razões econômicas justificam opressão e injustiça. Esta é a estética da vida no capital. Sobre um caixote nas esquinas de Paris nos anos 70, Jean Paul Sartre afirmava: “cada homem traz dentro de si toda uma época, do mesmo modo que cada onda traz dentro de si todo mar”.

(Artigo publicado no Diário de Santa Maria de 27 de fevereiro de 2014)

* UFSM



Compartilhe com sua rede social!

© 2017 SEDUFSM
Rua André Marques, 665 - Centro, Santa Maria, RS - 97010-041
Website por BM2 Tecnologia em Internet