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A ignorância política

Por:  Nilton Bertoldo*

É espantoso o conhecimento acerca da ignorância política! Assombroso na sua escassez, na sua pobreza, na sua aridez, na sua casual superficialidade. Busque-se em todos os poetas, menestréis, profetas, adivinhos e cronistas – e não se encontrará mais do que uma ou duas linhas rápidas. Parece que o povo brasileiro voltou as costas para isto, o seu mais temível azorrague, talvez mesmo, porque, aqueles que dela são possuidores, sempre sentiram que se tratava de uma cabeça de Górgona, cujo olhar transformaria os homens em pedra.

Nisso, essa gente estava coberta de razão, pois o mais aterrador capítulo da história humana continuará aguardando para ser escrito, enquanto os instruídos se esquivarem de investigar a ignorância política, passada e presente. Mesmo estas mal traçadas linhas, piedosamente breves, que aqui seguem, são, apenas, um rápido olhar, um grito monossilábico, um protesto vão. Em presença desses clarões, o coração sofre e o intelecto se entorpece. A horrível descoberta de São Paulo – a de que “Deus escolheu as coisas vãs do mundo para confundir os sábios” – fica prejudicada com esta observação. Somente um grande homem, tanto quanto se pode discernir entre anais intermináveis, avançou, impiedosamente, até contemplar, de perto, o gurinhém. Foi Siddharta Sakyamuni Gautama, o Buda. Ele, também, - único entre os grandes pensadores do mundo, - avaliou-o com exatidão.

Os pensadores do Velho Testamento não tinham a mesma profundeza de visão de Buda, mas, também compreenderam a ameaça da ignorância política:“ Pois um sonho vem através de uma multidão de negócios; e a voz de um tolo é conhecida por uma multidão de palavras.” “É melhor ouvir a censura dos sábios do que a canção dos tolos.”

"As palavras dos homens sábios são ouvidas mais em silêncio do que o grito daquele que governa entre os tolos.”“As palavras da boca do homem sábio são graciosas; mas os lábios do tolo a tragarão.”

Sim, é tudo exato, dir-se-ia. E, entretanto, mal aflora o assunto. É sempre tocar e passar. Sempre assim, através dos tempos. Pode-se até encontrar algum cidadão instruído que se tenha devotado, durante anos, ao estudo da ignorância política. Outrossim, os homens gastaram dezenas de anos estudando as baratas, contando os ovos das moscas, fazendo diagramas dos padrões existentes nas asas das borboletas, levantando o censo das abelhas, etc. Não é singular que todos tenham evitado o que Buda , há cerca de 25 séculos, achou que era uma das coisas mais importantes no mundo dos homens? Não há qualquer laivo misterioso no fato de um pequeno grupo de pesquisadores trabalhasse, durante semanas, na biblioteca central de Nova Iorque, à procura de algo que tratasse da ignorância política, para só encontrar alguns rápidos ensaios, versos e pilhérias sem muita graça?

Conhecem-se pessoas bem informadas e de grandes leituras, mas, mesmo estas, pouco ou nunca, coligem dados sobre indivíduos ignorantes politicamente, tampouco fazendo quaisquer referências sobre o assunto. As enciclopédias nada mencionam nem discutem, e o famoso Familiar Quotations, de Bartlett, traça, apenas, algumas linhas breves sobre assunto. Tudo indica que as pessoas evitam o que sabem não poder dominar, aparentando ter o curioso instinto animal de deixar o ignorante político em paz. Está na hora de parar de ressoar as cordas menores na harpa da História e forçar o povo brasileiro a deixar de ser moribundo e relutante na escolha de seus representantes (?), pois a ignorância política é a praga mais perversa dos brasilenses, a sua interminável pandemia e, ipso facto, precisa ser exterminada o mais breve possível!

Há muitos exemplos de ignorância política, inúmeros casos tristes e as pessoas inteligentes não resistem a ponderar, por muito tempo, sobre coisas lúgubres. Existe pouca novidade e mínimo excitamento em acompanhar os cabeças-de-pau de desatino em desatino, pois não há nisso qualquer lucro nem fama.

(Publicado em A Razão de 18 de março de 2014)

* UFSM



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