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O político valdevinos

Por:  Nilton Bertoldo*

Muito se tem observado e dito sobre as oportunidades dos cidadãos, no tempo dos grandes movimentos dos povos. Os bens gelados do velho lar são degelados sob a quente ambição do jovem aspirante; tudo está estabelecido, possuído, cristalizado. Mas, se parte para outras paragens, encontra a sua oportunidade na vida. Quando todas as coisas estão instáveis, os mais espertos se sentem em casa. Há nisto muita verdade. Entretanto, deixa na obscuridade outra muito maior. Observam-se súbitas ascensões à fama e à fortuna. Brilham como meteoros e cometas – e, na escuridão do semiconhecimento, enchem os céus com a sua luz, Mesmo assim, são, relativamente ao que acontece às massas de pioneiros, somente uma rodilha na pirotécnica do progresso. A meia dúzia de construtores de impérios que plantaram as inúmeras ferrovias transcontinentais, que desbravaram florestas intransponíveis e que exploraram mares bravios, deu, aos menestréis, fartos motivos para canções.

Todavia, as dezenas de milhares de indivíduos que vagaram por um sem número de aldeias, à procura de uma vida melhor – para onde foram? Qual é a sua fama? Onde está a sua fortuna? Cecil Rhodes ainda inflama a imaginação dos jovens sonhadores. Porém, ao olhar os poeirentos “kaals”, as planícies da África do Sul e a notável maré humana que lá habita, vê-se que Rhodes foi somente a onda maior e mais avançada. Ao aceitar todos os fatos, e não apenas os casos dramáticos, torna-se imperativo inferir que, para cada homem arrojado e brilhante que lucra com a vagabundagem, uma multidão de pessoas comuns encontra as carreiras políticas comuns da sua espécie. Algumas fizeram bem, outras morreram à margem, mas muitas delas deixaram de melhorar a sua parte.

Em tempos idos, e em muitas partes do mundo, mesmo agora, as forças que expulsam os cidadãos dos seus lares para novas paragens, tendem a perpetuar e a aumentar o rebanho dos cafumangos. Nas grandes migrações, os ximbos têm uma grande vantagem sobre os astutos, pelo menos sob um aspecto, que às vezes é decisivo. Uma modificação radical no ambiente se reflete tanto sobre a mente como sobre o corpo. Todo o hábito é minado – um trejeito cruel, o vanilóquio, uma atitude ou decisão tomada à socranca, no melhor dos casos, ou fatal no pior. À medida que a migração normal passa das áreas mais densamente povoadas para as de menor densidade populacional e vice-versa, o emigrante típico flutua entre ambas, do convívio dos amigos para o meio dos adversários ou para a solidão povoada de nada. Altera o seu sono, a sua alimentação, as suas horas de fadiga e os seus próprios movimentos durante o trabalho cotidiano. Muitas vezes deve aprender dialetos, sotaques, regionalismos e costumes estranhos de etiqueta, de dinheiro e de “negócios”, abandonando, amiúde, os princípios da Moral e da Ética.

Ora, uma pessoa de alta sensibilidade sofrerá mais do que um calça-fecho, sob tais reajustamentos. Aqueles emocionalmente instáveis provavelmente, sofrerão mais do que todos, pois sentem mais profundamente os choques. Parece, pois, que, à luz de tudo isso, o político lustroso, em geral, se satisfaz mais facilmente. Portanto, permanecerá onde os cidadãos mais inteligentes desdenham ficar, parando no primeiro local que considerar tolerável, principalmente se vislumbrar oportunidades de maracutaias.

É razoável admitir que, uma vez por outra, nasceu uma criança mais vivaz num desses buracos existentes em republiquetas de bananas, como o Brasil. Essa criança que saiu do nada e, certa vez, sumiu! E nunca mais foi vista. E, depois de algum tempo, reapareceu! Então, como se vê, encontram-se espertos andejando por todo o mundo, com bilhetes de ida e volta. A regra antiga já não tem valor; à medida que se ultrapassam o tempo e o espaço, também se remexem os caldeirões cheios de espuma da raça humana, e deles se retiram estranhos peixes. A praga dos dias atuais é que não se pode fugir dos políticos calça-foices. Basta ir para os pontos mais extremos do mundo e lá estarão eles!

(Publicado em A Razão de 11 de abril de 2014)

* UFSM



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