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O político faz-de-conta

Por:  Nilton Bertoldo*

“Eles não têm um lampejo de imaginação.” Assim as pessoas se referem aos sujeitos alarves – com muita felicidade, aliás, pois esta espécie de insensibilidade diminui o campo das percepções e dos voos superiores do pensamento, muito mais gravemente do que a perda de ambos os olhos. Considere-se o que a imaginação pode trazer. Considere-se o que seria a vida sem ela. O homem totalmente sem imaginação – se já existiu algum, coisa que se duvida – viveria exclusivamente no aqui e no agora. O domínio de sua estultice abarcaria todo o ontem, todo o amanhã. Um grande território! Voltadas para o ponto móvel deste aqui e deste agora, as suas sensibilidades seriam intoleravelmente agudas, admitindo-se que a sua energia igualasse as energias de um indivíduo normal – pois as suas únicas saídas seriam os canais dos sentidos – olhos, ouvidos, nariz, língua, pele e membranas mucosas. Nenhum esteta das relações humanas poderia excitar-se com este estranho ser, em presença dos céus e das nuvens, dos pássaros e dos peixes, das virgens e das profissionais do sexo. Todavia, apreenderia somente forma e cor, somente cheiro e gosto. Os significados mais sutis, que estão na ordem e no destino das coisas, jamais seriam alcançados. É possível que tivesse uma simples memória, mas a enriqueceria de modo limitado, pois só entraria em serviço como um auxílio nas percepções imediatas. Olhando para um cavalo, poderia percebê-lo como o mesmo animal que viu uma semana antes. Além disso, nada!

Jamais sonharia, mas poderia, durante o sono, experimentar sensações corpóreas, tais como calor sob as cobertas ou câimbras no pé. Nem poderia planejar o futuro. Por necessidade, levaria à prática o preceito de Jesus Cristo: “Não penses na tua vida, nem no que comer, nem no que beber; nem no teu corpo, nem sobre o que nele porás... Não penses no amanhã...” Assim, toda a sua vida passaria como uma coisa imediata, caótica, sem visão, infinitamente estulta. Nem mesmo um imbecil vive neste nível. Um idiota vive mais abaixo. O rol de indivíduos estupidarrões possui considerável imaginação, mas de uma espécie que exige descrição e diferenciação cuidadosas. O seu conteúdo é peculiar, mas, felizmente, familiar a todos.

Há quatro tipos de fantasias que podem ser estudadas, analisadas, decompostas e dignas de especial consideração: o simples devaneio, a reflexão lógica, a imaginação criadora e o faz-de-conta. No simples devaneio, as imagens surgem, demoram um pouco e depois se fundem no nada; é o sonho ocioso, à luz do dia. Na reflexão lógica, as coisas são dissecadas, classificadas, rearrumadas, relacionadas a outras coisas reais ou imaginárias e, vagarosamente, daí surge um sistema de conclusões que pode ou não ter valor. Na imaginação criadora, alguma coisa se inventa – seja um soneto ou um instrumento mecânico; aqui, não há necessidade de reflexão lógica. Com efeito, o testemunho de muitas pessoas de pensamento criador mostra que, em geral, a novidade surge como um relâmpago, já pronta. No faz-de-conta, as coisas aparentes são tratadas como se fossem reais. Considere-se apenas esta última, encontradiça, muitas vezes, na classe política. Pois, o político faz-de-conta engendra imbecilidades que escapam à mente humana, a menos que se trabalhe sobre elas com uma lente poderosa. Como fantasia, o faz-de-conta é uma herança da infância. Nesses primeiros anos é vigorosa, em grande parte devido à incapacidade da criança para distinguir entre as invenções (Copa do Mundo e Olímpiadas) e as realidades (falta de segurança, de saúde e de educação).

É no sonho que o faz-de-conta se intromete nos anos maduros. Não aguentará a luz do Sol, em regra, mas a noite suaviza a extensão dos seus erros. Sob o seu influxo, os desejos se tornam cavalos em que o sonhador monta, sempre e sempre, até o Apocalipse. Quando surge a alvorada, o Fato bate à porta – e expulsa o mundo das sombras. Somente duas variedades importantes de adultos continuam a fazer de conta de modo sério e ordenado: os escritores de ficção e as vítimas de sistemática auto-ilusão, sejam paranoicos ou simples extrovertidos excêntricos.

(Publicado em A Razão de 25.04.3014)

* UFSM



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