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Povo submisso

Por:  Nilton Bertoldo*

A pessoa submissa, observa William Marston, livre e prazerosamente, anula a sua própria vontade, a fim de que possa ser dirigida por outra pessoa mais forte, essencialmente igual a ela mesma, pelo menos quanto às tendências envolvidas no ato da submissão. Introspectivamente, quer e gosta de submeter-se inteiramente, e sem questionar, à vontade do outro. Tem a clara convicção de que a pessoa dominadora deseja fazer algo de bom por ela, alguma coisa que realmente gostaria de ter ou de ser. E, geralmente, também acredita que a pessoa dominadora pode auxiliá-la a conseguir, mais rapidamente do que ela, a submissa, poderia fazer.

Marston ainda demonstra, por meio de muitos casos e experiências, que a variedade mais comum de submissão se revela na obediência das adolescentes às respectivas mães, levando aquelas, muitas vezes, ao desespero, prejudicando, destarte, a sua evolução e as suas carreiras. Ressalta que este fato se parece, exatamente com um viciado que aprecia a droga enquanto a utiliza e, nos intervalos, almeja vencer o hábito odioso.

Esta submissão, quase universal, provavelmente, tem as suas raízes na infância. O bebê, ainda de braço, é sempre submisso à série de atos praticados pela babá ou pela mãe, de quem o pequeno acaba por gostar. Assim a fusão do prazer com a submissão tende a estimular novas experiências com essa atitude. A criança aceita, prontamente, a disciplina do professor, logo que vai para a escola. Naturalmente, se o professor não sabe manter a agradável dominação a que a criança foi habituada, os laços são, em breve, rompidos. E é um fato psicológico que todos os indivíduos se inclinam, prontamente, à submissão a pessoas agradáveis, que se pareçam, ou consigo mesmos, ou com aqueles de quem gostam. É o que acontece com o nosso país. Nenhum estatístico jamais calculará quanta moleza da geração atual se deve, apenas, à docilidade nos primeiros 5 ou 6 anos de escola. Brasílicos desfibrados – e existem milhares – são uma praga, mas, a quem condenar se a educação do povo está entregue às traças?

Outro motivo, pelo qual tantos jovens se tornam submissos muito cedo, se encontra no seu fluxo natural de energias, especialmente nos planos psíquicos superiores. A submissão é o caminho mais fácil – mesmo quando, em certos planos inferiores, é estrênua ou incômoda. Como este ponto, tanto quanto se sabe, jamais foi devidamente estudado, se é que foi reconhecido, deve ser esclarecido, pois contém o sangue vivo de muitos que pertencem aos vários estamentos sociais e daqueles simplesmente idiotas, que deixam que outros os governem sempre. As ramificações dos erros e das cegueiras dos tipos inferiores continuarão a ser um mistério, até que se compreenda a economia peculiar da submissão.

A vida fácil e cômoda agrada a muitos estultos, principalmente porque aprender a fazer coisas por si mesmo requer infinitas e cansativas experiências e erros, se a inteligência é vagarosa. É difícil, para uma pessoa inteligente, avaliar o esforço e o incômodo que representam tais esforços. A melhor imagem disso é a fadiga em que um bom estudante cai, depois de haver lidado, durante horas, com um problema que está além de sua compreensão. Para todos os fins práticos, faz pouca diferença que o néscio possua simples sensibilidade, sem energia motora para experimentar, aprender e realizar novas experiências, ou que lhe falte mesmo a energia nervosa que mantém a sensibilidade.

Qual será, pois, para esses lustras, a sua economia natural? Todo o seu impulso animal procurará ajustamentos satisfatórios à vida com o mínimo de energia – e isso, no sujeito imbecil, significa o mínimo esforço mental. Uma pessoa idiota, com boa saúde, não se ressente do trabalho físico – pelo contrário, acha prazer nele, até certo ponto. O indivíduo com saúde, de bons músculos e de pronunciada burrice naturalmente tende a adotar a atitude submissa nos assuntos que requerem esforço mental além de da sua capacidade. Esse é o caminho mais fácil para centenas de brasilenses!

(Publicado em A Razão de 29.04.2014)

* UFSM



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