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O político criminoso I

Por:  Nilton Bertoldo*

Um criminoso é um sujeito que se esforça por fazer o seu caminho em assunto e de maneira proibidos pelas pessoas que fazem as leis. Este esforço é, assim, em certo sentido, uma forma de dominação. Ora, o crime é um conceito puramente legal e não uma concepção moral. Muitos atos criminosos são altamente morais, de todos os pontos de vista, e vários feitos imorais não são, de maneira alguma, criminosos. Em outro linguajar: nem todos os esforços para dominar um grupo, contrariamente à sua vontade, são criminosos, ou mesmo imorais. Os atos são considerados criminosos pelo grupo, por meio de um único instrumento chamado lei escrita. Milhares de cidadãos podem gritar que é um crime despedir um trabalhador depois de anos de serviço, mas isso não faz do empregador, que assim procede, um criminoso. O julgamento deve ser lançado e gravado nos livros da lei, e, normalmente, deve ser apoiado por um ato que o transforme em realidade.

Deve-se ter em mente estas coisas elementares ao considerar a chamada parvulez dos políticos criminosos. Por outro lado, verificaram-se confusões, como tem acontecido, amiúde, nas dissertações de distintas classes profissionais. Ouviu-se, inúmeras vezes, que os criminosos são insanos ou mentecaptos! Esta doutrina foi ensinada e continua inatacável, ainda hoje, em certos círculos; entretanto, não tem sentido.

Muitos especialistas já tiraram conclusões, assaz apressadas, acerca dos políticos criminosos de fatos conhecidos sobre os chamados convictos. Admitem, antes de tudo, que os criminosos são, na maioria, convictos, ou se não o são, que os convictos são exemplares típicos de todos os criminosos. Ora, estas afirmações acerca dos políticos fora-da-lei são tolas, tanto quanto fazem generalizações ou conclusões fáceis sobre investigações nas prisões – uso de telefone celular, por exemplo. E o povo é seriamente enganado, mesmo pelos mais escrupulosos biometristas, como Goring, cuja brilhante análise de 37 traços, em 3000 convictos, é clássica. Eis a sua conclusão: “Sobre a evidência estatística, uma afirmação que se pode fazer, dogmaticamente, é a de que o criminoso é diferenciado por estatura inferior, por inteligência defeituosa, e, até certo ponto, pelas suas propriedades antissociais. Mas, à parte estas diferenças, não há característicos físicos, mentais ou morais aos internados nas prisões”.

Veja-se o testemunho de William Hickson, diretor do laboratório de psicopatologia de Chicago, na década de 70, do Século XX. Depois de estudar mais de 40 mil convictos de Chicago, descobriu que quase todos eram “emocionalmente insanos”. Praticamente, todo crime é demência precoce e o resto é paresia, exceto cerca de um caso em cada cem, que provém de alguma lesão orgânica cerebral. Os crimes devidos a anormalidades do intelecto, Hickson considera como extremamente raros, salvo quando ocorrem em combinação com enfermidades cerebelares. E, então, encontra-se a astúcia financeira! De qualquer maneira, chegam à conclusão de que todos os criminosos são doentes mentais. Este raciocínio falaz erra ao julgar a parte como o todo. Estes cientistas tiveram uma incurável tendência a pensar sobre apenas uma coisa de cada vez. Admitem que todos os criminosos que estudam são típicos de todo o grupo criminal, quando, evidentemente, conclusões como as de Hickson e Goring se baseiam apenas no estudo dos criminosos sobre os quais se estendeu a ação da justiça.

Nos Estados Unidos, nessa mesma ocasião, as prisões, por todas as causas, chegaram, aproximadamente, a 2 milhões por ano. Somente uma prisão, em quatro, resultou em condenação. Muitos dos detidos são, naturalmente, inocentes, mas muitos outros eram culpados ou foram presos em lugar dos verdadeiros criminosos. Em cerca de 500 mil condenações, mais de 300 mil eram de bêbados, desordeiros e vagabundos; políticos, praticamente, ao que se saiba, nenhum! Como se vê, lá, naquela época, não era muito diferente do que aqui, agora, nesta Terra de Santa Cruz, uma republiqueta de bananas da América do Sul, associada, talvez a outras, como Venezuela, Bolívia, Equador, Argentina, Paraguai e Uruguai.

(Publicado em A Razão de 13.05.2014)

* UFSM



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