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O político matador

Por:  Nilton Bertoldo*

Durante as centenas de milhares de anos quentes, entre as idades de gelo, os vales dos rios da Europa e da Ásia eram florestas por onde os rinocerontes e os elefantes rasgavam os seus caminhos, esmagando a vegetação. Sobre planícies infinitas, além desses rios, vagavam manadas de bisões, de gamos e de cavalos, como num pesadelo de caçadores. Eram terríveis como a que, ainda, na lembrança da última geração, se encaminhou para a morte, no deserto de Kalahari, uma manada de milhões de criaturas que se espraiaram sobre a África como uma praga de gafanhotos. E que dizer do homem nesse tempo?

Ainda não aprendera a lavrar o solo, plantar a semente e esperar a colheita. Assim vivia afastado da terra. E, tornando-se onívoro, sobreviveu a muitas criaturas de gostos e de poderes digestivos mais limitados. Tinha pouca ou nenhuma habilidade na fabricação de utensílios e armas. Então, quando essas manadas o surpreenderam, devastando a terra, teve de agir derrubando os animais desgarrados, muitos velhos ou doentes, devorando-lhes a carne sangrenta no local da peleja. Nas secas terríveis, quando as manadas desapareceram em busca de água distante, o homem teve de se tornar mais arrojado no ataque e mais rápido na perseguição da caça. Ao chegar o inverno, o homem se abrigou nas cavernas e combateu os lobos da floresta, com pedradas, quando eles saltavam. Se, ao fim do inverno, o alimento escasseava, capturava e comia os forasteiros, e, caso não os houvesse à mão, devorava, relutantemente, os avós.

Durante a Velha Idade da Pedra, tornou-se hábil em construir armadilhas para as pequenas criaturas. Vivia nas árvores, apanhava pássaros no voo e pescava. Na Média Idade da Pedra, tornou-se um grande caçador, o mais terrível de todos os matadores: estava, então, fabricando escudos, machados, agulhas, lanças, flechas – um instrumental de morte. O tempo do medo passara. Daí por diante, em bandos bem armados, realizou sortidas contra os mamutes peludos e organizou festins bárbaros. Lançou-se contra o bisão, sem temor, e, quando o alimento escasseava, voltava as suas novas armas contra outros homens a quem disputava a posse de bens. O desarmado perdia tudo – o matador vivia e engordava!

Quando não havia outra coisa a fazer, o matador praticava a arte de matar. Ensinava às crianças o manejo das armas. Pouco depois de aprender a alimentar o seu estômago, o matador aprendeu a alimentar o seu “ego”. Surgiram as cidades. Dentro de algumas gerações, certamente, os habitantes das boas terras tiveram de lutar contra os invejosos e os famintos das terras infecundas e estéreis. Os que nada tinham, avançavam para tomar. Os que tinham, resistiam e combatiam os que não tinham. Quanto mais depressa as gentes proliferavam, tanto mais compacto se tornava o anel de adversários famintos em torno das planícies férteis. Portanto, as batalhas eram mais ferozes; os habitantes da aldeia, em geral venciam, sempre que os inimigos não eram em número esmagador, pois, pelo simples fato de viverem em comum, em contato pessoal uns com os outros, com hábitos fixos, se haviam tornado uma gangue, com chefes e com um estado-maior de “gangsters”, sempre prontos para a luta.

Assim começou o vagaroso domínio da cidade sobre o campo, que ainda não está completo, mas que provavelmente o estará dentro de alguns séculos, certamente antes do ano 2 500 da Era Cristã. Foi a gangue que fundou a civilização - e é o “gangster” que ainda a mantém. E a natureza da sua tarefa o torna completamente insensível ao sangue e ao sofrimento. Como matador de animais, não necessita de tendências delicadas. Como matador de seres de sua própria espécie, deve ser frio e duro. Assim, durante o último meio milhão de anos a seleção natural favoreceu os tipos humanos que se rejubilam com o assassinato ou que condescendem com ele, sem náuseas. Pois aqui entra o político corrupto, o político matador, que, ao desviar dinheiro público, deixa o povo sem educação, segurança e saúde. Fala-se, bem entendido, do rebanho. E os chefes? Devem ser tão brutais como os seus “gangsters”?

(Publicado em A Razão de 27.05.2014)

* UFSM



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