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O ego na política

Por:  Nilton Bertoldo*

Há anos, os homens encontraram grandes diamantes na África do Sul e, de todas as partes do mundo, os caçadores de fortuna se puseram em marcha para os novos campos de Kimberley. Entre eles se encontrava um esperto pelotiqueiro profissional, que deixara o seu emprego em Londres e se juntara à grande massa a caminho dos campos de Kimberley. Ali sofreu os altos e baixos comuns dos garimpeiros, mas, finalmente, trapaceando, encontrando algumas pedras, conseguiu juntar dinheiro suficiente para se retirar à vida privada com uma renda razoável. Colocou todas as suas economias num diamante magnífico e partiu, via marítima, para a velha e querida Londres. A bordo, dividiu seu tempo entre a exibição do seu diamante e da sua habilidade como prestidigitador, bazofiando que jamais errara. E o provava, mostrando as suas habilidades no convés – com o diamante.

Certa manhã, vendo que os outros passageiros começavam a mostrar cansaço, inventou um passe mais impressionante: com o diamante em uma das mãos, saltou sobre a amurada do convés superior e se equilibrou ali, com uma perna só; depois atirou o diamante para o ar, de uma mão para outra, enquanto o navio se balouçava sobre as águas, berrando que nunca havia errado! Então, o mar como se pronunciando à eterna resposta da natureza ao homem, mandou uma onda enorme, o navio cabriolou, o prestidigitador e o diamante saltaram – e nunca mais foram vistos – terminando, assim, outro ego estúpido!

A estultice, em algumas de suas formas mais cômicas, e, muitas vezes, mais desastrosas, deriva do ego excessivo. O ego entorpece as sensibilidades humanas ante todas as suas atitudes, todos os modos de avaliação e todos os princípios de conduta que, de qualquer maneira diminuem a personalidade. Quando, como Kipling disse do símio, “há muito ego no seu cosmos”, o homem perde toda perspectiva, o mesmo acontecendo com o seu senso de humor. O egocêntrico diz e faz coisas que irritam os simples observadores. É de bom alvitre lembrar o cabineiro de Wall Street, que foi descoberto a ler a vida de Napoleão Bonaparte e lhe perguntaram se gostava do livro. Ele pronta e seriamente respondeu que sim, acrescentando que estava muito impressionado por ver que Napoleão se parecia com ele!

O egocêntrico é sempre assim. Usa os maiores antolhos já inventados como parte dos arreios de um animal. Em geral, começa muito cedo a dar mais valor a si mesmo do que a tudo mais. O seu orgulho tem somente uma vantagem: a de que ele vê sempre o cosmo da mesma perspectiva. Charles Sumner revela o modelo típico, como bem demonstrou Gamaliel Bradford:

“No caso de Sumner, era uma satisfação plácida e complacente, uma sólida certeza de que o mundo necessitava dele – não abalada pela dúvida, nem perturbada pela desconfiança. O mundo necessitava dele, mas não tão completamente como supunha. É difícil encontrar qualquer falha nesta autoconfiança. O vasto número de discursos e de cartas de Sumner parece abrir uma ampla porta para a sua vida interior. Examinei esses escritos, curioso por encontrar qualquer sinal de autodesconfiança ou, mesmo, de autocrítica. Procurei em vão.”

Na verdade, Sumner dedica exemplares de seus livros com desculpas perfunctórias. Quando eleito para o Senado americano, aceitou sem entusiasmo; porém, a sua hesitação não provinha da dúvida sobre a sua capacidade, mas da má vontade de abandonar outros fins. Apenas numa única ocasião, em todo o curso de sua vida, reconheceu em si mesmo um sentimento de fraqueza, de inferioridade e de incompetência. Mas onde? Em presença das cataratas do Niágara! Pode-se pensar, neste ponto, que Sumner era, pelo menos, um milionésimo de grau menos estúpido do que o prestidigitador do diamante, que não temia o Atlântico. É o que acontece com muitos políticos de republiquetas da América do Sul, que desconhecem ou, simulam desconhecer as suas próprias limitações! Esses precisam ser colocados no limbo político ou – o que seria muito mais benéfico para o povo brasileiro – banidos para sempre de nosso país!

(Publicado em A Razão de 19 de junho de 2014)

* UFSM



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