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A rebeldia do acontecimento

Por:  Carlos Henrique Armani*

Passado um ano desde o início das manifestações sociais que marcaram a história recente do Brasil, podemos perguntar quais são os seus significados possíveis. Como historiador, arrisco a apontar dois sentidos desses eventos para a história.

Uma primeira marca das manifestações enquanto evento histórico é o reconhecimento da multidão como agente histórico. Ousaria dizer que essa é uma característica potencialmente universal do fenômeno: a tomada das ruas, a “invasão” do espaço público, o auto-reconhecimento de que há uma dimensão de imponderabilidade de toda a manifestação e que a multidão é, em parte, um grande agente histórico indomado pelo discurso e pelos “proprietários da sociedade”. Há nele um potencial de explosão do continuum da história, o que torna as Manifestações de Junho não somente um evento passado, como também um acontecimento que depende do futuro como indeterminação e possibilidade.

A segunda característica que aponto como fundamental das Manifestações está relacionada às teses sobre o fim da história. Não parece haver, por parte dos sujeitos políticos envolvidos nas manifestações, uma crença unívoca de que a democracia liberal representaria o estágio final de uma humanidade que precisaria, para se realizar plenamente e resolver dialeticamente sua luta por reconhecimento, apenas fazer ajustes empíricos no sistema, sem qualquer alteração qualitativa e estrutural das próprias sociedades capitalistas liberais. Penso que tais manifestações não se resolveram por qualquer síntese.

A síntese implica uma totalidade e uma dificuldade de apreensão do novo. Por essa razão de natureza mais teórica, o acontecimento continua mantendo-se irredutível ao apreender conceitual que pretende subsumi-lo integralmente, uma espécie de rebeldia que o caracteriza enquanto irromper de um instante decisivo.

Se há um legado das Manifestações de Junho de 2013, é que não temos qualquer garantia histórica, seja na perspectiva de seu tempo, seja no seu agenciamento. A rebeldia do acontecimento nos permite pensar e viver, com certa liberdade, o futuro. Tudo indica que a greve dos acontecimentos acabou. E não por razões de atendimento as suas demandas, mas simplesmente pelo fato de que suas demandas são inesgotáveis, como o é a história.

(Publicado no Diário de Santa Maria, edição de 28/29 de junho de 2014)

* UFSM



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