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O ego na política - II

Por:  Nilton Bertoldo*

Em personalidades insignificantes, o ego se torna simplesmente cômico. Cite-se um nobre irlandês, lorde Talbot de Malahide, descendente do grande Boswell, de quem escreveu a mais delicada biografia de todos os tempos. Quando o doutor A. Rosenbach, famoso colecionador americano de livros raros, enviou à Sua Excelência um cabograma oferecendo 250 mil dólares pelos papéis de Boswell, então em seu poder, o digno nobre entrou como uma bala no consulado americano em Dublin, levando o cabograma “como um lenço sujo” , perguntando quem era aquele indivíduo. Após o cônsul ter-lhe prestado todas as informações, o lorde, soberbamente, ordenou-lhe que avisasse o doutor Rosenbach para não se corresponder mais com ele, pois não tinham sido apresentados!

A alta sociedade é pouco mais do que uma invenção para aumentar os egos minúsculos. Quanto menor o ego, tanto mais estrenuamente constrói o seu “status social. O cume de qualquer pirâmide social não é maior do que uma cabeça de prego.

No Kaiser, a egomania era sempre furiosa. Em sublime autoestima, certa vez, insistiu com sua avó, a rainha Vitória, para que se lhe dirigisse, mesmo na intimidade, como “Vossa Majestade Imperial” – aliás, esse filme se vê amiúde nas universidades brasileiras, atualmente. A velha senhora perdeu as estribeiras com esta imbecilidade: “Pretender ser tratado assim - escreveu ela, em carta depois publicada por G. E. Buckel – é perfeita loucura. Se possui tais noções, seria melhor nunca ter vindo aqui”.

Era esse o supremo Senhor da Guerra, que muitos anos depois se tornou vítima de sua própria estupidez colossal e egoísta. Uma das mais comuns grosserias que têm as suas raízes no ego, é a insensibilidade para as capacidades do rival. O Kaiser Guilherme II era especialmente suscetível a esta doença mental , mais frequentemente do que outras pessoas – passava o dia todo fardado. No Século XX, alguns estrategistas competentes declararam que a origem psicológica do colapso da máquina de guerra prussiana, na Guerra Mundial, deve ser encontrada na convicção dos generais Ludendorff e von Hinderburg, de que os aliados seriam muito ignorantes para discernir os profundos esquemas do gênio do Kaiser. Daí o consenso da opinião alemã, antes que a América entrasse na guerra: “Os americanos jamais entrarão na guerra; não podem levantar um exército, nem transportá-lo através do Atlântico, nem ter qualquer valor como soldado”. Então, quando o desastre acompanhou o erro, Maximilien Harden, socialista alemão, escreveu amargamente: “Por que esta inesperada derrota, em seguida à realizações tão importantes? Porque um comandante militar, intoxicado por êxitos isolados e ensoberbecido pela onipotência de César, duas vezes deixou de conceber um cálculo exato da América como fator”.

Essa insensibilidade aos rivais se revela em muitos políticos. Enfatuados de orgulho, subestimam a esperteza dos seus competidores, procedem de acordo com algum plano próprio, que lhes dá a impressão de serem diabolicamente astutos e, depois, fracassam redondamente, porque os outros têm um plano melhor. A insensibilidade aos fatos mais óbvios, que não coincidem com os desejos e os planos do egotista, muitas vezes o leva, a grandes passos, para a ruína. O simples ego não pode resistir à adulação, pois quanto mais estulto o seu possuidor, tanto maior a queda. O prazer de ser abertamente elogiado torna os sujeitos insensíveis às grandes situações e os coloca em acentuada desvantagem num encontro ou num debate. Assim, a adulação – entenda-se, também, “puxa-saquismo” – é a arma favorita daqueles que querem obter algo em troca de apoio político. A adulação é, muitas vezes, melhor que o trabalho e faz com que o espertalhão leve vantagens nas suas relações com o egotista estulto.

Abraham Lincoln disse, certa vez: “Uma gota de mel atrai mais moscas do que um galão de fel”. Praticou, com infinita esperteza, o que pregava. Nenhum homem jamais adulou os outros com mais elegância, raramente ultrapassando os limites da verdade nos seus louvores. O seu mel atraía milhares de moscas e Lincoln parece ter sido bastante honesto para admitir que os cativos eram insetos!

(Publicado em A Razão de 01 de julho de 2014)

* UFSM



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