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Jornadas de junho: um ano depois

Por:  Diorge Alceno Konrad*

As Jornadas de Junho de 2013 retomaram manifestações de rua como ainda não haviam acontecido no Brasil neste século XXI. As similares, ainda no século passado, haviam sido, em menor escala, o “Fora Collor!” de 1992, e com milhões nas ruas do país, as “Diretas Já!”, em 1984, a primeira vitoriosa, a segunda derrotada.

O aprofundamento das mobilizações de rua pelos movimentos sociais e políticos em 2013, como num sábado santa-mariense que levou 30 mil às ruas da cidade, mesmo que algumas pautas tenham sido difusas, sintetizaram o anseio dos trabalhadores brasileiros e de setores da pequena burguesia, especialmente entre a juventude, por transporte mais barato e de qualidade, além de melhoria dos serviços em torno da educação, da saúde e da moradia, assim como as manifestações contra a corrupção.

Em decorrência das jornadas de junho, ocorreu o Dia Nacional de Lutas, uma verdadeira greve geral, em 11 de julho de 2013 (a última havia sido em 14 e 15 de março de 1989, contra o governo de José Sarney), quando as centrais sindicais e dezenas de movimentos sociais construíram uma pauta de consenso, centrada na redução do preço e na melhoria na qualidade dos transportes públicos, em mais investimentos na saúde e na educação pública, no aumento do valor das aposentadorias e no fim do fator previdenciário, na diminuição das taxas de juros, na redução da carga semanal de trabalho para 40 horas e na defesa da reforma agrária, todas elas de caráter tático, mas ainda na ordem do dia e que deverão marcar o debate eleitoral nas eleições brasileiras de 2014, no rumo da defesa de mudanças mais estruturais, em contraponto ao domínio dos interesses do grande capital, sobretudo do capital rentista e especulativo.

Passados 365 dias, podemos afirmar que as grandes reivindicações e as pautas levantadas em 2013 ainda estão atuais, somadas com a descriminalização dos movimentos sociais, traduzidas na consigna, mesmo que indireta, de mais Estado e menos mercado, além da retomada da defesa de uma reforma política com Constituinte Exclusiva para tal.

Depois de um ano, por outro lado, percebe-se que a criminalização dos movimentos sociais, não inaugurada em junho de 2013, se ampliou em decorrência de determinadas táticas de violência de certas correntes que atuaram junto aos protestos, sejam de oportunistas criminosos comuns, sejam de grupos mais radicais de influência libertária e de algumas correntes de oposição de esquerda, somadas com ações violentas de diversas polícias, especialmente de São Paulo, resultando no trâmite de projetos de lei que visam criminalizar ainda mais as legítimas manifestações de rua, especialmente com a chamada Lei Antiterrorismo, assentada na histórica solução conservadora de nossas classes dominantes sobre a Lei e a Ordem, origem de todas as chamadas “Leis de Segurança Nacional”.

Por fim, os movimentos sociais e os partidos comprometidos com mudanças têm como tarefa politizar mais o discurso anticorrupção, fugindo da tecla de certos monopólios de comunicação e da política conservadora, retomando a crítica ao superávit primário, assim como aos altos juros e amortizações da dívida pública que leva em torno de 40% do orçamento da União para os cofres do capital financeiro. Não há como investir mais em transporte, saúde, educação e moradia sem romper com esta lógica.

(Publicado em A Razão de 08.07.2014)

* SEDUFSM



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