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O político introvertido

Por:  Nilton Bertoldo*

Ser insensível a todas as condições e a todos os acontecimentos do mundo que nos cerca é ser ignorante em grau supremo. Mas, como pode uma criatura viver num ambiente em que não percebe claramente nem sabe como há de agir? E o que é a inferioridade, senão a incapacidade para resistir? Conceda-se isso – e chega-se a considerar o político introvertido como o mais estúpido e esturvinhado dos homens, na exata proporção da sua introversão. Esta é a opinião de muitos especialistas que atuam na área de estudo da mente humana. Alguns destes vão até considerar qualquer forte introversão como um defeito básico. Não é preciso chegar tão longe, mas devem-se notar as principais evidências que justificam este ponto de vista.

Habitualmente, o político introvertido atenta alguma coisa no seu espírito. Fazendo-o, coisas e sentimentos se transformam em um novo fato psíquico. A frase é de Carl Jung e é muito feliz. Assim, para citar novamente este psicanalista, “não se dá ao objeto a importância que merece”. O sujeitinho não pode dominar os objetos, pois o seu contato com eles é sempre confundido pelos seus sentimentos e atitudes em relação aos mesmos. Daí tender a se alarmar com novas situações, mesmo que não sejam prejudiciais, e a se orientar até o pânico, ante uma crise séria – o mensalão é um exemplo.

Se forçado a agir, a sua decisão é rápida. No seu pensamento mais formal, desenvolve uma teoria agradavelmente colorida e, depois, encaixa nela os fatos, de acordo com o hábito conhecido nos metafísicos, alguns introvertidos ao extremo ou, então extrovertidos grandemente mal ajustados, que se voltaram para a vida interior em vista do fracasso da vida exterior. Jung cita Darwin como o perfeito espécime do intelecto extrovertido e Kant como o exemplo do introvertido.

Infelizmente, muitos políticos introvertidos não conseguem o magnífico controle de Kant sobre as suas tendências interiores. O seu destino é viver para a corrupção e acharem que nada poderá afetá-los. As sementes da insânia estão espalhadas no campo de seus espíritos. Estes protótipos de gente são facilmente reconhecidos, pois quando passeiam, sem olhar para nada, os braços estão semirrígidos, pendendo ao lado do corpo. Jamais riem alto, exceto para si mesmos, falta ressonância à sua voz e, no máximo, respondem a uma situação humorística com um pequeno sorriso fingido. Também não fazem amigos. Quando estes valdevinos se esforçam para estabelecer a sua igualdade social, tornam-se irritáveis, instáveis e inclinados a atos incongruentes e impulsivos. Todo movimento espontâneo os faz extremamente autoconscientes, como se com surpresa para eles mesmos. O político introvertido parece não ter poderes de criação, na proporção da sua introversão, enquanto o maníaco extrovertido é intensamente criador!

(Publicado em A Razão de 24 de julho de 2014)

* UFSM



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