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O político extrovertido

Por:  Nilton Bertoldo*

O político extrovertido é fácil de descrever e, talvez, não tenha tanto interesse quanto o introvertido. Também aqui as suas estultícias são óbvias e, geralmente, livres das sinuosidades que marcam as de outros tipos mentais. Infelizmente, a sociedade brasilense enxameia, talvez, de indivíduos assim, o que torna o assunto somente um pouco mais interessante do que um verme da terra.

Este tipo de sujeito se concentra, de preferência, sobre as coisas em seu derredor. Em geral – mas não necessariamente – considera os seres humanos quase como coisas. As peculiaridades do bípede sensível e risonho lhe escapam – e, daí, os seus piores erros, especialmente quando pensa ser dotado de inteligência mecânica superior, que tende a fortalecer a sua ingênua concepção dos cidadãos como simples máquinas.

É ele o modelo perfeito de pessoa vinda de paragens longínquas, alguns deles retirantes, cuja mente centralizava-se e vivia sobre coisas e coisas: capim, árvores, arbustos, machados, facões, parafusos, graxa, floresta, caatinga, marnel. Começa a vida aí, depois vai para a cidade e se transforma. Nenhum homem pode devotar a primeira metade da sua vida terrena aos instrumentos sem se tornar instrumento dos instrumentos, sendo totalmente incapaz de compreender o que querem os cidadãos de seu país.

O político extrovertido sente que a sua linguagem é inadequada, como se pode mostrar em qualquer parte, e tem uma caridade curiosa e hipertrofiada em relação a todas as pessoas, baseada, em grande parte, numa sincera convicção de que nem ele nem os outros se tornam melhores por palavras ou por ações. O festival de babugeiras desta figurinha extrovertida é intrigante, em si mesma, principalmente porque lança luz sobre a evolução de determinadas questões da nação brasilense, em especial a econômica, durante os últimos Séculos.


Na construção de nossa republiqueta, teve-se de tudo: bandeirantes, atiradores, caçadores, hospedeiros, mineiros, fazendeiros, pastores, carpinteiros, pedreiros, mecânicos – numa palavra, homens cuja atenção teve de se voltar para as rudes materialidades de um continente para desbravar. Daí saíram os políticos, alguns com pecados de extroversão, que se revelam, nos seus piores aspectos, nas suas relações com as pessoas, nos atos que envolvem pessoas, como seres humanos ou para entesourar milhões!

Mas, que espécie de estupidez comete, mais frequentemente, um político extrovertido? Como se viu, as ignorâncias que se verificam nas relações humanas mais profundas. Gasta a sua vida com assuntos distantes do espírito humano, levando-o a erros terríveis, chegando à raiz do imenso e irreconhecível conflito entre o homem e o animal social e econômico. O político extrovertido jamais compreenderia esses fatos, pois é cego para a psique alheia!

(Artigo publicado em A Razão de 08.10.2014)

* UFSM



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