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O fanatismo na política

Por:  Nilton Bertoldo*

Entre uma centena de sujeitos crentes ou dedicados fielmente a uma causa, encontram-se alguns que são muito menos estáveis, emocionalmente, do que os demais. A sua instabilidade assume a forma de violentas explosões, quando são contraditados ou criticados. Esforçam-se para impor a sua vontade, a sua ideologia e o seu pensamento aos outros e, acima de tudo, aos que se lhes opõem. Esses são os verdadeiros fanáticos. Quantos são, como classe, ninguém sabe. O recenseamento, as pesquisas, as estatísticas, no Brasil, não ajudam muito, principalmente pelo fato de não serem confiáveis, mas, com certeza, formam legião.


Contrariamente à crença generalizada entre os indivíduos cultos, não estão absolutamente limitados ao mundo dos imbecis; em verdade, raramente se desenvolvem entre os idiotas. Uma das surpresas dos testes de inteligência e de higiene mental do após-guerra – realizados nos Estados Unidos – é a de que há uma correlação positiva, ou nenhuma, entre a inteligência e a estabilidade emocional. Uma pessoa de inteligência superior pode não ter qualquer controle sobre os seus medos e as suas raivas, ao passo que um toleirão pode ter o tato de um diplomata nesses ajustamentos.


Entre os fanáticos que se conhece e se observa, encontram-se brilhantes cientistas, cujas realizações são conhecidas e admiradas em várias partes do orbe, e outros, por mais estranho que pareça, são meros técnicos que trabalham em setores mais sofisticados da indústria. É a existência de fanáticos altamente inteligentes que faz a situação, de certas republiquetas da América do Sul, tão grave, nesses tempos hodiernos. Se todos os pregadores de virtude, censores e proibicionistas fossem tolos, como seria fácil colocá-los nos seus devidos lugares! Mas centenas deles, infelizmente, são cientistas, pesquisadores, professores e presidentes de grandes corporações, tanto quanto os criminosos de primeira classe.


Mesmo assim, a massa de crentes e fanáticos deve encontrar-se nas classes média e baixa da população e deve-se procurar saber como a sua beatice e o seu fanatismo são agravados por setores da mídia. Em resposta, deve-se considerar, separadamente, a psicologia do elogio e a psicologia da condenação, devendo, ainda, dividir-se esta última, em psicologia do medo e psicologia do ódio. Antes de tudo, porém, deve-se descrever uma curiosa relação psíquica entre o mundo dos negócios humanos e o leitor comum de periódicos. Aí reside todo o conjunto do movimento fanático. O mundo dos negócios humanos cresceu em minudências e em complexidades, muito além da capacidade ou do desejo do homem comum de conhecê-lo e, cada dia que passa, mais se distancia dele. A diferença relativa entre o seu mundo imediato e íntimo e o resto aumenta constantemente, resultando num conhecimento menor.

(Publicado em A Razão de 17.10.2014)

* UFSM



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