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Kerensky, o liberal - I

Por:  Nilton Bertoldo*

Alexander Fyodorovich Kerensky foi o espécime perfeito do político liberal, onde se pode observar as grandes linhas da sua carreira tragicômica. Tanto quanto era capaz de qualquer pensamento claro, evidentemente aderiu à doutrina da onipotência das ideias – particularmente quando envoltas em frases bem torneadas. Do pouco que se conseguiu reunir acerca da sua personalidade através de vários observadores estrangeiros, muitos dos quais críticos ou hostis, o sujeitinho parece o que o astuto correspondente do Observer, de Londres, escreveu, - “um poseur teatral e histérico.”

O biógrafo de Lênin, Valeriu Marcu, desenha-lhe assim o retrato: “Kerensky gostaria de governar como Imperador, mas lhe faltavam dois atributos napoleônicos: A virtus dos antigos e a aptidão para o sucesso. Se falava de medidas finais, decisivas, draconianas, tudo o que os cidadãos ouviam era uma voz rouca, e tudo o que viam era um dedo ameaçador. Os seus heróis não tinham atrás de si, nem uma grande ideia nem o argumento das baionetas. Entretanto, Kerensky  simbolizou uma espécie de ditadura: a da impotência. Com uma incansável retórica, jamais igualada, esse ministro tentou assustar a revolução com os generais e os generais com a revolução.”

O quadro parece completo, mas deixa de fora muitos lineamentos principais. Antes de tudo, Kerensky era um russo puro-sangue, com várias inferioridades motoras. Não sendo um homem de ação no sentido ocidental, era, entretanto, enérgico e, de certo modo, ambicioso, gostando, acima de tudo, de exibição. Pode ser – e pode não ser – significativo que se tenha tornado advogado em Petrogrado. Certamente, um exibicionista verboso não poderia escolher meio melhor para o seu ego do que essa brilhante e dignificante profissão.


De qualquer maneira, Kerensky se tornou o William Jennings Bryan do Partido Social Revolucionário e, em 1912, foi eleito para a quarta duma, onde entusiasmou os seus ouvintes com os seus discursos ferozes. A sua fama cresceu e se espalhou, pois os russos sucumbiam ante a oratória tão facilmente quanto muitos pobres diabos de nossa republiqueta de bananas. No tempo da revolução, foi o seu herói. Em julho de 1917, como Ministro da Guerra, organizou a grande ofensiva contra a Alemanha, escolhendo um grupo de suboradores e de outros propagandistas para arengar aos soldados, junto com ele.  E que barulho fizeram! Todos os jornais aliados publicaram manchetes declarando que esse poderoso chefe, Kerensky, estava conduzindo milhões e esmagaria os hunos. Os hunos, em verdade, quase morreram – de rir! Os hunos viram chegar essa horda que gritava “à Berlim!” e viram todo o episódio afundar, logo que Kerensky deixou a linha de frente. Três semanas mais tarde, o antigo império dos czares desapareceu de cena como potência mundial.

(Publicado em A Razão de 18 de dezembro de 2014)

* UFSM



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