Artigos

Kerensky, o liberal - II

Por:  Nilton Bertoldo*

Antes de continuar a investigar o liberalismo deste sujeito, admitam-se as adversidades da sua posição. Jamais uma nação estivera num caos monumental como a Rússia antes de Lênin, sendo de duvidar que alguém a salvasse dessa desordem. Mas, com certeza, o extremo liberalismo de Kerensky tornou ainda pior a confusão e apressou o choque final. Durante muitos anos, proclamara, ativamente, a liberdade de palavra e de ação. Algumas das suas mais ardentes orações se desenvolveram em torno desse tema. Ao chegar ao poder, tentou governar de acordo com os seus princípios.

A carreira de Kerensky foi uma luta pela democracia e pela liberdade de palavra e, particularmente, de ação. Tendo conseguido a posição de chefe do Estado, como poderia negar todos os seus princípios, fuzilando os seus adversários porque divergiam dele? Os que acreditam que Kerensky fosse chapetão, também creem que fosse covarde. Porém, muitos estão convencidos que não era nem uma coisa nem outra; antes sofria com o peso de certas ideias que inibiam as ações positivas requeridas pelo tempo. O seu fracasso tornou possível a revolução comunista.

O liberalismo fechou a sua mente quanto às exigências de situações desesperadas. Então, tornara-se apombocado através da fé – como tantos outros fizeram. A sua atitude, estava fixada nos caminhos da inação. A sua mente funcionava através da laringe – era um sujeito de palavra. De modo que, o fato de não haver prendido nem executado os chefes bolcheviques, não era absolutamente covardia, mas a fusão natural dos seus traços mais fortes. Alguns preferem chamar esse procedimento inibido, uma forma especial de desconchavo, de que tem a marca essencial – a insensibilidade aos fatores vitais numa situação.


A carreira de Kerensky apresenta, em grau exagerado, as parvoíces do liberal. Em toda a história, não se pode encontrar tão grande soma de desventuras como as suas, nem se pode achar um repúdio mais completo do liberalismo do que em Lênin, que afastou de cena o débil falador. Como disse certa vez, a impiedade era o maior de todos os deveres, desde que se estivesse convencido da justiça da sua tarefa. Desprezava a tolerância e, sendo o maior dos extremistas, os seus triunfos provaram que aqueles não necessitam ser mandus. Também demonstraram, indiretamente, que o liberalismo, embora possa servir de propósitos dignos em tempos de paz e de prosperidade, não serve nos momentos de crise, que exigem ação firme e bem dirigida. Qualquer ordem é melhor do que a do caos, qualquer governo é melhor do que a anarquia. Há liberais que o compreendem, e esses não são absolutamente zotes. Porém, a sua desgraça é a de atrair os tongos que, encontrando-se em perigo de supressão, em virtude de suas paspalhices, pedem clemência em nome da liberdade pessoal.


(Publicado em A Razão de 26 de dezembro de 2014)

* UFSM



Compartilhe com sua rede social!

© 2017 SEDUFSM
Rua André Marques, 665 - Centro, Santa Maria, RS - 97010-041
Website por BM2 Tecnologia em Internet