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Whitman e certos políticos - II

Por:  Nilton Bertoldo*

A ocupação favorita de Walt Whitman parecia ser a de estar fora de portas, olhando para a grama, para as árvores, para as flores, para os efeitos da luz, para os aspectos vários do céu, ouvindo os pássaros, os grilos, as rãs e todos os demais ruídos da natureza. Era evidente que essas coisas lhe agradavam muito mais do que as pessoas comuns. Até que o conhecessem, para essas pessoas nunca havia ocorrido que alguém pudesse tirar tanta felicidade dessas coisas. Gostava muito de flores, de toda espécie, bravias ou cultivadas. Talvez nenhum sujeito gostasse de tantas coisas, e não gostasse de tão poucas como ele. Todos os objetos naturais pareciam ter encanto para ele. Todos os sons pareciam agradar-lhe, assim como todas as visões e sons. Parecia gostar – e, acredita-se que gostasse – de todos os homens, de todas as mulheres e de todas as crianças que via, embora nunca se ouvisse dizer que gostasse de alguém; mas, todos que o conheciam, sentiam que lhe haviam agradado – e que ele gostava também dos outros. Nunca se soube que ele discutisse, nem falasse de dinheiro.


Sempre justificou, à vezes por brincadeira, outras vezes seriamente, os que falavam rudemente dele, dos seus escritos, do que fazia... – e sempre se pensou que encontrava prazer na oposição dos inimigos. Quando o encontravam pela primeira vez, pensavam que ele se vigiasse, que não deixasse a sua língua exprimir desgosto, antipatia, queixa ou remorso, pois não parecia possível que estas coisas estivessem ausentes dele. Depois de longa observação, entretanto, verificava-se que essa ausência – ou essa inconsciência – era inteiramente real. Nunca deblaterava contra nenhuma nacionalidade, classe de homens ou tempo da história do mundo, nem contra as profissões e as ocupações – nem mesmo contra nenhum animal, nenhuma coisa inanimada, nenhuma das leis da natureza, nem qualquer resultado dessas leis, como a doença, a deformidade e a morte. Nunca se queixava do tempo, da dor, da moléstia – de nada. Jamais blasfemava. Não o podia, pois nunca falava zangado e, aparentemente, nunca se irritava. Jamais demonstrou medo e não se acreditava que alguma vez o tenha sentido.


Whitman, muito cedo, ganhou a reputação de esconder dos amigos os seus pensamentos e sentimentos íntimos. Até sua mãe supunha que isso fosse uma excentricidade lamentável, afirmando que “ia e vinha como lhe agradava, quando criança, achando tudo bem, sem se incomodar com coisa alguma”. Em alguns casos, esses segredos são, naturalmente, os estratagemas habituais de determinados políticos – esses nunca sabem de nada, coitadinhos! – mas, em muitos casos não podem ser explicados tão facilmente. Que dizer do seu extraordinário pouco caso pelo dinheiro, que jamais mencionava? E a sua indiferença ou covardia pelo debate e discussão?

    (Publicado em A Razão de 7 de janeiro de 2015)

* UFSM



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