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Comissão da Verdade, um bem que se quis!

Por:  Diorge Alceno Konrad*

Bem que se quis...mas não há caminhos pra voltar, canta a música de Pino Danielle e Nelson Motta. Passados mais de 50 anos do Golpe que derrubou João Goulart, finalmente o Relatório Final da Comissão Nacional da Verdade (CNV), lançado no final de 2014, desvendou um pouco mais dos segredos da Ditadura de Segurança Nacional e do terrorismo de Estado implantado no Brasil.

O Relatório, apesar dos que tanto desqualificaram o trabalho da Comissão, foi um bem que se quis.  Consta nele, para ficarmos em um exemplo, nos perfis de mortos e desaparecidos políticos, o caso de Cilon Cunha Brum, guerrilheiro do Araguaia, nascido em São Sepé: uma biografia; considerações sobre o caso até a instituição da CNV; as circunstâncias do desaparecimento e morte, e de como ele “foi vítima de desaparecimento forçado durante a Operação Marajoara, planejada e comandada pela 8ª Região Militar (Belém) com cooperação do Centro de Informações do Exército (CIE)”; a identificação da autoria com a Cadeia de Comando do(s) órgão(s) envolvido(s) no desaparecimento e na morte, desde Emílio Médici, passando pelo capitão Sebastião de Moura, o “Curió”, até o comandante da operação, o general Hugo Abreu; as fontes principais de investigação e; as conclusões e recomendações, afirmando que “Cilon Cunha Brum é considerado desaparecido político, o que não permitiu o sepultamento até os dias de hoje”. Por isso, “recomenda-se a continuidade das investigações sobre as circunstâncias do caso ‘Cilon Cunha Brum’, localização de seus restos mortais, retificação da certidão de óbito, identificação e responsabilização dos demais agentes envolvidos no caso, conforme sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos que obriga o Estado Brasileiro ‘a investigar os fatos, julgar e, se for o caso, punir os responsáveis e de determinar o paradeiro das vítimas’” (Relatório Final da CNV, vol. 3, p. 556-560.)

A pressão pela memória e pela verdade teve como protagonistas diversos setores da sociedade civil. As iniciativas surtiram efeito, mesmo que ainda parciais, para que o País responsabilize historicamente os crimes imprescritíveis (tortura, estupros, sequestros e os desaparecimentos forçados) praticados pelo Estado, avançando na consolidação democrática.

Santa Maria e região querem saber: sobre os presos que saíram para a DOPS de Porto Alegre ou para quartéis de Bagé e se nestes locais sofreram torturas; sobre os presos e torturados em Santa Maria; dos arquivos da repressão na UFSM, em torno da Assessoria Especial de Segurança e Informações; enfim, entre tantas outras coisas, querem saber mais de uma verdade que ainda tem muitas partes a serem reveladas.  Senão, não haverá justiça de transição.

Por tudo isso, depois do Relatório Final da CNV, um extenso documento que deve ser conhecido por cada brasileiro, já não há caminhos pra voltar!

(Publicado em A Razão de 15 de janeiro de 2015)

 

* SEDUFSM



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