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Whitman e certos políticos - III

Por:  Nilton Bertoldo*

A falta de ira e de medo é muito mais do que uma simples fusão da percepção com o sentimento numa nova entidade psíquica, que, como diz Jung, produz o material mental de que se formam as experiências de alguns políticos. É uma falta das reações emocionais comuns de raiva e medo em relação às pessoas. E, ao mesmo tempo, falta de reações motoras normais, especialmente nas relações sociais. Faltava, também, a Whitman, o procedimento normal do macho erótico. Os seus ajustamentos exteriores eram, completamente do tipo estético-submisso. Assim, não lhe restavam outras funções, exceto as vegetativas, para dirigi-lo.

O vago clarão de agressividade que nele havia, brilhava no seu hábito de escrever cartas anônimas e páginas de críticas sobre os seus próprios poemas e, particularmente, no fato de utilizar a devoção juvenil e o nome de John Burroughs como máscara, atrás da qual escreveu sobre si mesmo, de maneira altamente elogiosa – a exemplo de muitos políticos de republiquetas chinfrins! Como Frederick Hill Jr. demonstrou, Whitman foi o autor das “Notes on Walt Whitman as Poet and Person”  que Burroughs publicou como seu primeiro livro em 1867. Nesse livro, Whitman não atacou pessoas, apenas se elogiou; ao mesmo tempo, aviltava movimentos e instituições, de que sabia menos do que nada. Mas, mesmo este débil movimento pelo reconhecimento foi somente uma fase do apelo positivo e criador da sua estranha natureza, a saber, o seu narcisismo.

O seu defeituoso equipamento motor e cerebral levou-o ao fracasso como escritor, jornalista, carpinteiro, professor, crítico de arte, conferencista. Afastou-o de muitas oportunidades normais e agradáveis no mundo do trabalho e da sociedade. Atirou-o contra si mesmo. Afundou pesada, doce, naturalmente, até o humo do ego, criou raízes e floresceu. Aos 35 anos, declarou publicamente que dedicaria o resto da vida “a exprimir, com fidelidade...a minha personalidade física, moral, emocional e estética”. Nenhum homem que tivesse preservado os seus contatos sociais e a sua perspectiva do mundo em geral, poderia ter pronunciado essas palavras: o sujeito perdera todo senso de proporção e dos valores relativos, inclusive o seu senso de humor! Revelam o impulso de uma personalidade limitada para preservar o seu equilíbrio vital em face de graves limitações.

Whitman, vegetativo, nada criou. Em vez de prosseguir para novos reinos de beleza e de verdade, a fogo e sangue, afundou na companhia das vacas. A sua noção de democracia era a do rebanho. O seu conceito de felicidade era a alegria do nabo a crescer na terra úmida e quente. E constitui a suprema comédia dos erros, o fato de que muitas pessoas inteligentes o tomassem como ídolo, confundindo o mugido do novilho Whitman e de certos políticos, com o rugido do leão!

(Publicado em A Razão de 28 de janeiro de 2015)

 

* UFSM



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