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O político unilateral

Por:  Nilton Bertoldo*

O político unilateral continua, pela vida afora, um Ciclope. Mas, o seu único olho é penetrante, pois vê coisas que os outros não veem. Para ser unilateral, duas condições devem se juntar. Em primeiro lugar, deve-se ter nascido com uma tendência caprichosamente forte e, em segundo lugar, deve surgir uma oportunidade para desenvolver essa tendência. Quando isso ocorre, a mente unilateral tornar-se-á cega para certas situações – a crise do abastecimento de água e a energia insuficiente – e hipersensitiva para outras – a sede de cargos e o assalto à Petrobras. A personalidade altamente acentuada encontra muitas dificuldades, “ipso facto”, como membro de um grupo heterogêneo, está impiedosamente fora do seu convívio.

O perigo desse tipo de escória está no fato de que nem o diabo pode modificar o seu estreito ponto de vista, nem a natureza lhe permitirá fazer ajustamentos satisfatórios a situações além dos seus interesses pessoais. Não deve ser confundido com o político beato: este fecha a sua mente, pela ignorância e a instabilidade emocional, mesmo para informações que afetam vitalmente a sua beatice. A mente de John Roach Straton estava preocupada com a teoria da evolução, mas fechou a sua mente a todas as suas fases, chegando, mesmo, a não ler Darwin. O político unilateral, por outro lado, é aberto a tudo o que pertence aos seus interesses. Fora disso, é profundamente insensível – e a sua parvoíce pode conduzir a desastres que afetem muitos outros além de si mesmo.

Os exemplos estão aí. O povo brasileiro vai pagar por ter votado nesses sujeitos: pessoinhas escroques, ocupando cargos importantes, que deveriam ser preenchidos por técnicos altamente especializados; jamais por políticos unilaterais e muito menos por seus apadrinhados! A republiqueta verá quanto custará a estupidez desses caras. Porém, não se deve confundir a toleima do político unilateral com a do perito. Embora este último possa ter um único interesse dominante, muitas vezes está voltado para uma série de problemas diferentes, possuindo maiores habilitações, entretanto, num determinado campo. As suas estupidezes não são devidas a tendências estreitas que o façam, pela sua própria natureza, insensíveis a tudo que fique além da sua especialidade, mas provém de enganos e erros em atribuir falsos valores a fatos úteis.

As estupidezes do perito se derivam, em regra, de insensibilidades devidas à experiência e ao treino. Nisso, naturalmente, difere do político unilateral. Muitas vezes, erra porque os seus patrões desejam vê-lo realizar o impossível: ou porque esses patrões estão convencidos de que, se um homem conhecer a fundo um assunto, pode transferir o seu conhecimento a outras áreas com habilidade e êxito. Entretanto, sabe-se que esse conhecimento especializado é limitado.

(Publicado em A Razão de 10 de fevereiro de 2015)

* UFSM



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