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Greve vitoriosa e de resistência

Por:  Diorge Alceno Konrad*

Depois de mais de cem dias de greve dos docentes da UFSM, resta-nos o balanço inicial do movimento. E como em todo protesto, ocorreram perdas e ganhos. Em resposta àqueles que profetizavam que a greve não leva a nada, respondemos que de 0,1% de aumento, os docentes terão acréscimos médios na titulação de 9% já em janeiro; aos que insistem em formas alternativas de protesto, saibam que o sindicato nacional buscou negociação de 2004 a agosto de 2005, sem que o governo cumprisse sequer os pontos acordados em Grupo de Trabalho, como a incorporação das gratificações; lembramos que, diante do anúncio do 0,1%, protestamos na “Campanha dos Porquinhos”, depositando os valores correspondentes ao aumento no Banco do Brasil, na esperança de que o governo utilize os recursos para investimentos sociais, já que o superávit primário apenas tem servido para auxiliar no pagamento diário de 50 milhões de dólares dos serviços dos juros da dívida externa. Mesmo assim, só depois de 35 dias de greve, fomos recebidos pela primeira vez.

Porém, a lógica do aumento conquistado, seguindo as políticas aplicadas pelos dois últimos governos, amplia as distorções salariais na carreira docente, empurrando o docente da ativa para trabalho até os 75 anos, ou o impele para uma aposentadoria complementar, seguindo as artimanhas da reforma da previdência. Por isso, recusamos o Projeto de Lei, depois que o Ministério da Educação rompeu as negociações. Paridade entre ativos e aposentados e isonomia na classe são princípios inegociáveis para o movimento docente.

Esta greve tem que ser contextualizada no quadro de resistência em que se deu. E por isso ela foi vitoriosa. Os ganhos serão para todos, incluindo os não-grevistas, a quem respeitamos nas suas resoluções, mesmo que não aceitem a decisão soberana, majoritária, representativa e legítima das assembléias.

Resistência não só pela remuneração justa que reivindicava a reposição das perdas inflacionárias do governo atual; resistência pela Universidade Pública e Gratuita ameaçada pela ânsia privatista; resistência contra os que, nas saídas individuais para enfrentar a crise interna de falta de recursos nas Universidades, aceitam a lógica mercantil no lugar de uma visão de que ensino, ciência e tecnologia são estratégicos para uma nação. Aqueles que mais perderam no curto prazo pela parada docente devem entender que resistimos para que um dia o acesso ao ensino superior não seja um direito de poucos, mas prática universal. Aí sim, todos ganharão.

(Artigo publicado na Razão, dezembro de 2005)

* SEDUFSM



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