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Afinal, quem são os escravos?

Por:  Sérgio Alfredo Massen Prieb*

Muitos empresários e até mesmo pessoas que se dizem de esquerda, insistem que o problema da saída de fábricas de calçados do estado do Rio Grande do Sul, é causado pela concorrência com os produtos chineses, onde predominam o “trabalho escravo”. De maneira geral, repetem isto à exaustão, no entanto, não citam um dado sequer para comprovar suas fortes afirmações.

A escravidão a que se referem, deve-se à incompreensão de um aspecto elementar em economia: a diferenciação entre salário real e salário nominal. Ao observar-se que o salário de um trabalhador chinês pode ser de 50 dólares, algum observador desavisado pode concluir que o trabalhador brasileiro é, na verdade, privilegiado por receber um salário mínimo de 300 reais.

O que esquecem de dizer, é que na China os aluguéis tem um preço simbólico (entre 2 e 6 dólares), além de que saúde, alimentação e transporte público são muito baratos. Assim sendo, o montante que o cidadão chinês ou mesmo brasileiro recebe (salário nominal), pouco importa, mas sim, o quanto ele pode fazer com seu dinheiro. Assim como Cuba, onde o cidadão cubano com apenas um dólar, pode pagar um mês de aluguel, pagar dois meses de energia elétrica, pagar três meses de telefone, comprar um litro de leite por dia para filhos menores de 7 anos por três meses, entre outras coisas.

O grande responsável pelos produtos chineses serem baratos é que o governo chinês volta sua economia para equacionar os problemas da maioria da população, e não em proveito do lucro privado, que vive sob o controle do Estado, sendo que tanto os impostos como as taxas de juros são muito baixos.

Cabe a nós perguntarmos a estes empresários tão preocupados com os trabalhadores chineses, se os 300 reais de salário mínimo pagos aos seus empregados (ou colaboradores como gostam de chamar) são suficientes para sequer suprir a alimentação básica das famílias dos seus trabalhadores. Talvez daí possamos concluir, que se realmente existe a escravidão, talvez esta não esteja na China, mas ao nosso redor.

(A Razão, 14.01.2006)

* UFSM



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