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O jornalista e os interesses da sociedade

Por:  Fritz Nunes*

No dia 7 de abril comemorou-se o Dia do Jornalista. A efeméride foi pouco lembrada, até mesmo porque a profissão, apesar de toda a sua relevância na sociedade atual, está entre as que pior paga, que oferece mais riscos (haja vista o número de assassinatos de jornalistas no mundo) e, pior que isso, tem servido de forma pouco nobre para sustentar as estruturas de poder que se chocam com o interesse da população.

Não se sabe a origem exata do problema, se na ausência de uma formação qualificada e crítica nos bancos acadêmicos ou em outros aspectos, mas, o fato é que cada vez mais o jornalista tem se comportado, como bem observou recentemente Caco Barcellos (repórter da TV Globo), em um profissional que apenas reproduz declarações (o que ele chama de jornalismo declaratório), com pouca valorização da investigação, do cruzamento de informações e, até mesmo, da realização de entrevistas que aprofundem as pautas.

Desse modo, convivemos com situações paradoxais. Se, por um lado, vivemos num mundo globalizado, com informações em tempo real de todo o planeta, por outro, carecemos de profundidade nos assuntos, em especial na política e na economia. A superficialidade é a marca do jornalismo atual. Quando falo em servir às estruturas do poder dominante, me refiro aos veículos de comunicação que posam de imparciais, mas que na prática tornam-se “partidos políticos”. Isso é uma distorção na função da imprensa e resulta da mistura de interesses econômicos e pessoais de seus proprietários.

Dessa forma, falando da conjuntura atual, se é inegável a extensa lista de casos pouco elogiáveis na conduta de integrantes do governo Lula e de petistas no campo da política, também é fato que existem dois pesos e duas medidas usados pela maioria da imprensa do país. Beira ao escândalo e talvez merecesse uma CPI também.

Dois exemplos rápidos: a Folha de São Paulo denunciou um esquema de “troca” de apoio entre o governo paulista, do PSDB, e parlamentares da Assembléia Legislativa. Bem, o assunto não ganhou as mesmas manchetes no restante da imprensa, nem mesmo uma capa de Veja; o outro exemplo se refere a Mato Grosso. Lá existe um chefe de quadrilha chamado Arcanjo. Pois este cidadão comprovadamente repassou dinheiro a um senador do PSDB daquele estado, que atualmente “investiga” a chamada máfia dos bingos. Todos esses fatos certamente gerariam manchetes em horário nobre e capas de jornal, mas não na chamada grande imprensa. Apenas para os jornalistas da revista Carta Capital. Mas, quem sabe, com a proliferação de faculdades de jornalismo, novos profissionais com postura aguerrida e crítica ainda devam estar para adentrar ao mercado. Parabéns aos jornalistas, ainda que com atraso!

(Publicado em A Razão no dia 17.04.2006)

* SEDUFSM



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