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O olhar da mídia

Por:  Clóvis Guterres*

Herdei do meu pai o hábito de ouvir o “noticiário” naqueles rádios enormes na década de 50. Mas, em 1958, quando o Brasil ganhou a Copa do Mundo, já proliferavam os rádios à pilha. A partir da década de 60, passei a assistir regularmente aos telejornais, ainda limitados porque não haviam as redes.

Hoje, além de ouvir, assistimos instantaneamente aos acontecimentos no café da manhã, no almoço, na janta e antes de dormir. Assim, assistimos, pasmos, à tragédia das torres gêmeas em Nova York. Mas, para completar a informação apelamos para os jornais, às revistas e ultimamente para a internet.

É claro que essa combinação de horários de refeições com informações não é acidental. É conveniente para nós e oportuna para as empresas de televisão que negociam esses espaços como “horários nobres”, altamente valorizados do ponto de vista financeiro. Coincidem com os nossos intervalos de trabalho para a alimentação, e o descanso necessário à recuperação física e psicológica. Certamente, com essa “combinação” nos alimentamos mal, descansamos pouco e dormimos estressados.

Nesse início de ano ouvimos e assistimos, nos nossos horários nobres à toda sorte de tragédias, corrupções, violência, cinismo político e, nesses últimos dias, o absurdo das crianças abandonadas nas lagoas, nas ruas ou jogadas nos riachos. Nestas circunstâncias nunca sabemos claramente o que nos fez mal, se a refeição ou a notícia. No primeiro caso, sempre temos uma farmácia de reserva, mas para o segundo caso só uma medida drástica: desligar-se da rede de informações.

Hoje, resolvi, em caráter experimental, retirar esse acompanhamento dos meus horários nobres; não liguei a televisão como de costume às 7h da manhã, não corri para evitar que o cachorro mais novo destruísse o jornal. Acho que ele desconfia do que está contido naquele conjunto de papéis.

Em resumo, rompi com esse ritual macabro de horários sincronizados. Tomei a decisão de olhar por conta própria e não mais pelo olhar da mídia. È obvio que precisamos de informação, mas é preciso equilibrar porque a exceção se torna regra e o singular se torna o geral. Noticia-se o pior, que é a exceção e ignora-se o melhor que é o geral.

(Publicado no Diário de Santa Maria no dia 13.02.2006)

* SEDUFSM



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