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Bolívia e VARIG: fantasmas opostos da riqueza morta

Por:  Diorge Alceno Konrad*

Sérgio Buarque de Holanda e Raymundo Faoro tinham razão: o problema histórico do Brasil é a privatização do Estado. Nossas elites não são republicanas e nem liberais. A colonização e a dependência externa das classes dominantes explica. Bem lembrou Eduardo Galeano, há tempos, que a sociedade colonial potosina da riqueza da prata, só deixou na Bolívia a vaga memória de seus esplendores, as ruínas de seus templos e palácios e oito milhões de cadáveres de índios. A Bolívia, não soasse patético, poderia se vangloriar de ter alimentado os mais ricos. Potosí, hoje, é uma das pobres cidades de lá, uma ferida aberta do sistema colonial, onde ficaram os fantasmas da riqueza morta.

Quando criada, em 1927, a Varig obteve a isenção de impostos estaduais. Na primeira crise de 1930, Oswaldo Aranha socorreu a empresa. Desde a Fundação Ruben Berta, em 1945, e com o início das rotas internacionais, em 1965, a Varig manteve o amparo estatal com administração mercadológica. Enquanto isso, passagens caras impediram que a maioria de brasileiros através dela voasse.

Em 2005, inédito na história, os bolivianos elegeram um presidente indígena. Quando ele toma medidas de soberania, justamente os defensores do capital externo daqui gritam que nossos interesses na Bolívia têm de ser preservados.

Os casos recentes da Bolívia e da Varig, mesmo que paralelos, estão coroados pela hipocrisia de nossos estatistas do prejuízo, mercadistas dos lucros privados. A falência da Varig seria a solução adequada. O socorro, ocorrendo, tem que resultar na estatização, tendo o transporte aéreo estratégico para a soberania.

Evo Morales iniciou este processo na vizinha Bolívia com as reservas energéticas. Todos os trabalhadores devem aplaudi-lo, sem se deixar chantagear pela mídia. Como toda ideologia, o nacionalismo serve para quem domina, nunca para deixar de ser dominado. Uma verdadeira integração latino-americana poderia ultrapassar cinco séculos de superexploração da América Latina, caminho inverso da miséria social, concentração de renda e extração abusiva dos recursos naturais, como no caso boliviano.

Se nossos governos optarem por isso, mais aplausos, em memória de Simon Bolívar e dos trabalhadores que há 120 anos, em 1º de Maio de 1886, em Chicago, EUA, foram mortos reivindicando a redução da jornada de trabalho.

(Publicado em A Razão no dia 08.05.2006)

* SEDUFSM



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