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Cotas para negros: correção de rumos

Por:  Joél Abilio P. dos Santos*

A historicidade colonialista na América Latina, construiu discursos falsos e cruéis: os negros são “pura emoção”, os brancos, “a racionalidade”. Um discurso frente ao negro rude e selvagem, um negro “não domesticado”.

Mudaram os jeitos de dizer, não os paradigmas: as cotas para negros “ameaçam a qualidade do ensino”; como egressos, que vêm do ensino público, “estarão despreparados para o mercado”; e que isso é “uma violência ao princípio do mérito”. É o novo jeito do discurso, agora associado à questão de classe. Verdade ou mentira? Como saber isso antes se, ainda, são poucos os negros nas universidades: apenas 3%.

Quando trata do tipo de escola, em 2003, diz o inventário sócio-cultural da Universidade Federal de Santa Maria, que 57,2% dos classificados no vestibular vêm de escolas públicas (são 1.060 ingressos). As escolas particulares entram, no total, com 28,1% dos ingressos.

Pode-se, então, por mérito, desqualificar-se, pelo menos por aqui, as escolas públicas, se pensadas na relação egresso, mercado, qualidade? A UFSM faz alardes por ser uma univer-sidade de qualidade, levando em conta os provões do MEC (?!). Então, se faz um abusivo pseudo-discurso. Cruel e falso.

Mas o número de inscritos concorrentes foram de-siguais. Foram mesmo. Foram 13.560 para as públicas (51,8%) e 7.285 (27,8%) para as particulares. Ingressaram, destes, 1.060 pelas públicas e 521 pelas particulares. Examinado o percentual candidato/ingresso dá, mais ou menos, 7% para ambas.

E a renda familiar? Aqui, dói mais o discurso. Questionada a renda total mensal da família, o que dizem os números do inventário, qualitativamente, diante da frieza quantitativa da estatística? Dizem que a universidade é freqüentada por 0,8% de alunos, ingressos em 2003, cuja renda familiar é de 1 salário mínimo, e são 15 alunos, num universo de 1.847. Consideramos, aqui, o salário mínimo de R$ 260,00. Mas, também, os 7,8% de alunos cuja renda familiar é de 17 salários mínimos, e são 144 alunos, num universo de 1.847. O salário, aqui, é de R$ 4.420,00.

Para ambos é uma questão de justiça distributiva. Tratamento igual para quem está em igual situação: o acesso a uma universidade pública e gratuita. O tratamento se faz desigual na aptidão para o ingresso, os preparatórios qualifi-cados, diferenciam. O ensino público é sucata e não tem, para os pobres, alavancas salvacionistas. Só o escândalo das cotas. Cotas que acontecem porque há um darwinismo universitário que passa pelo vestibular. É por elas que o poder público, pede, à semelhança do Papa, perdão por tantas irresponsabilidades públicas. Cotas para negros é, pois, uma correção de rumos.

* SEDUFSM



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