Artigos

Convivência humana

Por:  Júlio Cezar Colvero*

A linguagem muitas vezes cria momentos de apreensão. Chega a assustar a quem recebe uma resposta dizendo: “O Sr. está na margem de risco”. Essa afirmação decorre das imposições de nossa sociedade, das comunidades, dos clãs, que nos norteiam. Estar em risco confere ao cidadão o limite da vida.

É notório que em nossas relações humanas, a velhice, aos poucos amenizada, tem-se tornado sinônimo de incapacidade. As mais notáveis criações da civilização, em maior parte, se deram nos avançados anos de vida e experiência.

Além disso, a vida prolongada em anos representa avanço para oportunidades de agir, sentir, acrescentar e criar. O direito de se locomover em via pública torna-se um desafio. Pessoas com problemas de locomoção sofrem com a insensibilidade alheia.

Certo dia, a caminhar em nossas mal cuidadas calçadas, tropeçamos e caímos gritando por ajuda. Olhares desconfiados, ignorando o apelo, passavam ao longo. Cabelos brancos, mas é velho, por que preocupar-se? Anda sozinho na rua? Os questionamentos são vários. E a terceira perna, pergunta um moço, sem muitas luzes, mas arrogante. Referia-se ele à bengala, muleta, ou coisa que o valha.

Um desses dias, um sr. nessas condições, sinal fechado, na faixa de pedestres – aliás apagada, quase inexistente – cai, demora em levantar-se. Passam mais de 15 pessoas e ninguém o socorre. Tudo isto, que se não fora a agilidade, mesmo deitado, o sr. conseguiu, rola-se em direção à calçada evitando os carros que passavam céleres, jogando poeira no desafortunado.

Mas, o inacreditável acontece. Por motivos diversos, um homem idoso transitava no acostamento da faixa nova de Camobi, quando percebe gritos de “velho..., etc”, em flagrante desrespeito. Era uma senhora com um menino em uma carroça, que transitava atrás da pessoa xingada. Era uma carroça. A pessoa exigia espaço e felizmente não era motorizada, o que melhorou a defesa do atingido. Reconhecida pelo homem, que quase foi atropelado, era a pessoa que semanalmente apanhava na casa do agredido materiais recicláveis.

Já houve progresso nas relações entre indivíduos de todos os matizes sociais. Mas, tal qual espiral, com seus raios, partindo do Centro, parecem-nos refletir, com mais ou menos intensidade, reflexos de anteriores acontecimentos. Espera-se que no evoluir da espiral, possa-se chegar a limites mais humanos. A história, certamente não se repete, mas acontecimentos assemelham-se, ao idoso, em lembranças de feitos pretéritos.

(Publicado em A Razão no dia 19.06.2006)

* SEDUFSM



Compartilhe com sua rede social!

© 2017 SEDUFSM
Rua André Marques, 665 - Centro, Santa Maria, RS - 97010-041
Website por BM2 Tecnologia em Internet