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03/04/2017   03/04/2017 11h46 | A+ A- | 542 visualizações

Em canto, verso e prosa: Cultura na Sedufsm recorda golpe de 64

68ª edição do projeto apresentou “Memória e verdade e canções que falam de luta”


Espetáculo emocionou a plateia com releituras de grandes canções

1º de abril de 1964: os militares efetuam um golpe de estado, derrubando o presidente eleito e tomando seu lugar, e colocam em cena uma série de medidas tidas por eles como fundamentais para a “manutenção da ordem”. Por esse processo passam, por exemplo, as cassações de mandatos políticos, a proibição de organizações, entidades e partidos, a prisão e o assassinato de figuras opositoras ao regime e, não menos importante, o controle e a censura sobre o que se podia ou não escrever, atuar e, obviamente, cantar. E isso não fora por acaso. Os militares sabiam muito bem da capacidade da arte, em especial da música, de representar uma época, expressar um sentimento, provocar reflexões, comover e inspirar. E nada disso era muito conveniente para o regime.

Passados 53 anos do golpe, ainda é fundamental – e talvez cada vez mais – falar sobre esses 21 anos de ditadura civil-militar. E na noite do último sábado, dia 1º de abril, no Espaço Cultural Victorio Faccin, a música foi justamente o ponto de partida para uma grande reflexão sobre esse capítulo que até hoje deixa suas marcas. Na ocasião, em parceria com o curso de Direito da UFSM, foi realizada a 68ª edição do Cultura na Sedufsm, que apresentou o projeto de extensão “Direito em canto e verso” com o espetáculo “Memória e verdade e canções que falam de luta”. Em um primeiro momento, poesia, música e teatro estiveram juntas no espetáculo que já marca a trajetória do projeto. Com direção geral de Pilly Calvin e musical de Gustavo Garoto, a encenação emocionou a plateia a partir de releituras de grandes canções da música brasileira, que traziam como pano de fundo o tema da ditadura. Nesse momento, Gonzaguinha e Chico Buarque, além de poemas como o “Operário em construção”, de Vinicius de Moraes, estiveram entre os fios condutores que contam a história desse período nefasto da história recente do Brasil.

Passado esse primeiro momento, a noite desse sábado teve uma novidade, com o acréscimo de um segundo ato ao espetáculo do grupo “Direito em canto e verso”. Na segunda parte, Gustavo Garoto e Lutiano Nascimento, músicos conhecidos da cena autoral de Santa Maria, interpretaram uma série de músicas que abordam e retratam os anos de chumbo, a resistência, a defesa e a reconquista da democracia. Caetano Veloso e Secos & Molhados marcaram presença nesse último ato musical.

Coordenadora do projeto de extensão que reúne especialmente estudantes do curso de Direito da UFSM, a professora do departamento de Direito, Bia Oliveira, ressalta o princípio que rege o grupo desde sua criação: promover a reflexão, o debate e a memória, através da emoção. “Não é nem negar o espaço da palestra, ou formatos mais tradicionais, mas com esse espetáculo a gente quer sensibilizar. Fazer refletir através da sensibilização. Eu acho que a gente utiliza muito pouco essa forma. Sempre briguei nos meios em que eu milito: tem que fazer e tem que fazer com a maior qualidade possível, porque a gente às vezes nem tem noção do quanto isso impacta as pessoas”, afirma Bia.

Passado, presente e futuro

Marcando o último ato da noite, uma roda de conversa foi realizada e teve como ponto de partida as memórias pessoais da plateia, fossem elas próximas ou não ao evento. Entre as experiências relatadas estava, por exemplo, a do professor aposentado da UFSM,  Dartanhan Baldez Figueiredo, que lembrou de ter convivido com estudantes infiltrados em sala de aula, cuja tarefa era controlar o conteúdo trabalhado (experiência vivída tanto como estudante quanto já na condição de docente). Outras duas lembranças trazidas por Dartanhan versam sobre o período no qual ele participou da gestão do Diretório Central dos Estudantes, o DCE. Dessa época, Dartanhan lembra de quando, em plena ditadura, o diretório conseguiu trazer a Santa Maria o cantor Gonzaguinha, e também da análise prévia pela qual deveriam passar as fitas com as músicas que tocavam na Boate do DCE, com o fim de controlar o conteúdo das obras. “É claro que depois a gente mudava a fita”, brincou Dartanhan.

Já entre o público mais jovem, os relatos, na maioria das vezes, tratavam das histórias que se ouviu falar. Além disso, uma parte considerável dessas intervenções traçou um paralelo entre a fragilidade da democracia de 53 anos atrás e a de hoje. Integrante do “Direito em canto e verso”, o recém mestre em Direito, Márcio Brum, carrega na família as marcas da Ditadura. Cilon Cunha Brum, familiar de Márcio, é um dos muitos desaparecidos políticos do Brasil. Natural de São Sepé, Cilon foi morto na Guerrilha do Araguai e seus restos mortais até hoje não foram entregues à família. Márcio é um desses jovens que vê com receio a vulnerabilidade do regime político brasileiro. “O projeto surgiu exatamente naquele momento em que o país estava mais mobilizado pela revisão da lei de Anistia, investigação dos crimes da ditadura, com a ‘Comissão da Verdade’, justamente para fortalecer a nossa democracia, e infelizmente esse momento não apenas não teve força suficiente como nós ainda acabamos andando no sentido contrário”, avalia Márcio. “A minha opinião é de que nós estamos dentro de um golpe com características diferentes das de 64. Eu diria mais: hoje eles não precisam dos militares e nem sei se os militares teriam intenção, porque o caminho escolhido, e pra quem é da área do direito é ainda pior, foi um caminho parlamentar e jurídico. E se você começar a estabelecer paralelos, a coisa caminha muito que par e passo”, complementa Bia.

Crise e saída pelo autoritarismo

Existem aqueles personagens que a cultura brasileira costuma chamar de as “viúvas da ditadura” – normalmente ex-militares saudosos, que insistem em elogiar o período de exceção a partir de dados inexistentes e argumentos bastante questionáveis. Mas e o que dizer de jovens que hoje, perante toda a crise pela qual o Brasil passa, visualizam no retorno do autoritarismo a única saída para supostamente colocar o Brasil nos eixos? Entre aquela parcela da plateia presente no último sábado e que não viveu pessoalmente a ditadura, essa é uma das grandes preocupações. “É muito triste quando a gente vê jovens sem o mínimo senso crítico pedindo a volta de um regime autoritário achando que isso é a saída para resolver nossos problemas. A gente sabe que essa não é a saída. O autoritarismo não vai resolver a crise política brasileira e não vai resolver a crise econômica, pelo contrário, ele só vai agravar. Na ditadura a gente sabe qua havia muita corrupção, só que não podia ser investigado”, aponta Márcio Brum.

A relação entre a crise política e ecônomica que assola o Brasil, e que coloca um horizonte de muitas lutas para a classe trabalhadora, e o debate sobre o que representa até hoje a ditadura, estão completamente interligados e nos colocam grandes tarefas, nas quais o sindicato precisa estar presente. Essa é a opinião da secretária-geral da Sedufsm, professora Fabiane Costas. “O sindicato não é descolado de tudo isso. Não era na época da ditadura e não é agora. Hoje a gente tem um recrudescimento inclusive na militância e a gente sabe que isso não é por acaso”, avalia Fabiane. E para o próximo período, que aponta inclusive para a construção de uma greve geral em 28 de abril, as tarefas também nos remetem àquilo que estava na pauta há 53 anos, segundo a professora. “Agora mais do que nunca é o momento de as pessoas começarem o processo de reunião e união, com as suas diferenças, porque nós temos diferenças. E é aí que tá a grande questão: a direita sempre se une por uma pauta única, a esquerda discute as suas teses e as suas diferenças e às vezes se separa nisso. Agora é um momento diferenciado e nós temos que ter a nossa postura única, com as nossas diferenças, mas o que se vê pela frente é algo que afeta a todos”, conclui Fabiane.

Confira mais fotos do 68º Cultura na Sedufsm aqui.

Texto e fotos: Rafael Balbueno
Assessoria de Imprensa da Sedufsm



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