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25/08/2017   25/08/2017 21h03 | A+ A- | 129 visualizações

Docentes criticam heteronormatividade e violência contra LGBT’s

II Seminário de Diversidade Sexual do ANDES-SN ocorreu na manhã da sexta, 25, em Pelotas


Destaque das falas foi a importância do não abandono da perspectiva classista na luta LGBT.

Nesta sexta-feira, 25, o ANDES-SN realizou seu II Seminário de Diversidade Sexual, que contou, pela manhã, com a mesa de debate intitulada “Políticas Públicas para a População LGBT e o combate à LGBTfobia nas Instituições de Ensino Superior”, e à tarde, com roda de conversa sobre a temática.

Uma das palestrantes da manhã era Qelli Rocha, docente da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Ela é lésbica e acredita que o fato de ter assumido sua sexualidade em sala de aula, bem como de ter formado um grupo de estudos sobre Gênero e Representatividade de Classe, motivou o processo administrativo a que responde atualmente. Em sua avaliação, isso se deve ao fato de que, no modo capitalista, a norma heterossexual apresenta-se como compulsória e sustenta relações assimétricas, binaristas e hierárquicas.

A docente diz que além de determinar uma única forma de sexualidade possível, a sociedade do capital também aponta qual o caminho da felicidade, e esse caminho perpassa pela relação monogâmica e pela idealização de “príncipes” e “princesas”, que serão a tampa da panela um do outro. Assim, quando alguém escolhe não estar num relacionamento amoroso, é taxado como infeliz.

“A monogamia é instituída pela apropriação da propriedade privada. A mulher, então, é capitulada pelo homem para a manutenção da posse sobre os bens materiais naquela família. A sexualidade da mulher vai ser reduzida ao âmbito doméstico”, reflete Qelli.

Unificação

Embora as opressões sejam, hoje, de diversas naturezas (gênero, etnia, sexualidade, etc), a docente ressalta a necessidade da não fragmentação entre as lutas. Para ela, as políticas de representação não deveriam partir do viés identitário, e sim unitário. “Eu não preciso ser heterossexual para fazer a luta classista, por outro lado eu não preciso ser homossexual para fazer a luta por direitos LGBT. Quando o capitalismo coloca essa ideia de especificidade, os sujeitos que não pertencem aos espaços específicos se sentem privilegiados, e por outro lado também se acomodam, já que, como não fazem parte daquele espaço, não se incluem na luta”, explicou.

A lógica capitalista, frisa Qelli, leva a que não nos reconheçamos entre nós, por isso a defesa de identidades unitárias, “em que eu me veja no outro e o outro possa se ver em mim”, diz. Mas tal defesa, salienta a docente, não significa o apagamento das demandas específicas. Ela mesmo cita a precariedade de políticas públicas para as mulheres lésbicas, alijadas, inclusive, da medicina preventiva. “Lesbofobia é repulsa em relação às afetividades das mulheres. A gente não existe ou não deveria fazer sexo. As políticas de reparação são importantes para dizer ‘Eu estou aqui, eu existo e demando políticas específicas’”, complementa.

Apropriação

Qelli traz a preocupação com a apropriação que o capitalismo realiza de pautas específicas, a exemplo da Parada Gay ser financiada pela Monsanto, transnacional que “explora ao extremo a classe trabalhadora”, diz. E segue: “O capitalismo estabelece uma situação de diferença que faz com o outro, ao não se reconhecer em mim, tenha ódio, raiva e queira me aniquilar. É preciso termos cuidado com as identidades identitárias porque o capitalismo é perigoso, ele solapa as nossas subjetividades a serviço da mercadoria. Nossa sociabilidade é reduzida ao consumo”, critica.

Adoecimento mental

Gean Santana, docente da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), trouxe dados impactantes sobre o adoecimento mental causado pela sociedade: a probabilidade de jovens não heterossexuais cometerem suicído é 7 vezes mais alta que jovens hetero. Também, entre metade e dois terços da juventude LGBT experimentou práticas de bullying na infância.

A reprodução de opressões também foi salientada pelo docente. “Militantes de movimentos segmentados muitas vezes reforçam estranhamentos – militantes que lutam contra a opressão do capital sobre os trabalhadores, nas relações interpessoais reproduzem o machismo. Gays, que sofrem na pele a homofobia, reproduzem a mesma prática contra lésbicas e pessoas trans, a lesbofobia e a transfobia”, exemplificou.

Da mesma forma, o docente resgatou a história da construção do debate de diversidade sexual dentro do ANDES-SN, a realização do I Seminário de Diversidade Sexual, no Crato (CE), em 2012, e a necessidade do Sindicato Nacional amplificar essas pautas.

“Companheiros nossos, nos tempos de hoje, não conseguem entender a importância de dar vazão à luta contra o machismo, o racismo e a lgbtfobia. Existe dificuldade, sim, dentro das organizações de esquerda, de levar esse debate adiante e a gente precisa se apropriar da produção teórica que já foi feita e apontar uma perspectiva para frente”, disse Gean.

Ele destacou a cartilha de “Contra todas as formas de assédio, em defesa dos direitos das mulheres, das/os indígenas, das/os negros, dos LGBTs”, reeditada pelo ANDES-SN e afirmou: “se fizermos metade do que está aqui, já será um enorme avanço!”.

Educação, lugar de disputa

Wilson Honório Silva, do Instituto Latino-americano de Estudos Socioeconômicos (Ilaese), ressaltou em sua fala a lógica do capital de fragmentar tanto as opressões como as lutas, com o objetivo de mercantilizá-las. “A visão mercadológica de direitos é a cara do neoliberalismo”, completou.

“Dentro da lógica capitalista, a luta contra as opressões tem que ser permanente, eu não tenho a menor ilusão de que é possível acabar com o machismo, o racismo, a lgbtfobia e a xenofobia nos marcos do Capital, e esse é o grande problema das saídas individuais, da militância individual”, disse.

O representante do Ilaese destacou ainda o papel fundamental das professoras e dos professores na desconstrução do discurso hegemonônico, pois segundo ele, a educação é, desde sempre, palco para as reproduções das ideologias opressivas. “A educação sempre teve ideologia: é machista, homofóbica e racista. Todo sentido da nossa relação enquanto professor é com o estudante. Todos os ataques às nossas condições de trabalho têm relação direta com a nossa capacidade de atuação dentro de sala de aula”, afirmou.

Segundo Wilson, é necessário que a categoria docente entenda que ocupa um lugar privilegiado, e até de “guerrilha”, onde é fundamental ter uma postura contra-ideológica, na perspectiva de combater as opressões nesses espaços, mas principalmente formar estudantes com outra consciência.

Ele também destacou, assim como Gean Santana, os índices de agressões a estudantes LGBTs nas universidades, e apresentou dados que apontam que 73% dos estudantes entrevistados foram agredidos. Desses, 36% fisicamente, e 60% dos alunos já faltaram à aula para fugir de assédios ou outras agressões. Silva também alertou para o alto índice de suicídio de estudantes e também de estupros, principalmente nas universidades públicas. “O número de estupros é maior nas  instituições públicas, porque a sensação de impunidade do estudante branco, de classe média alta, é maior”, disse. 

Wilson concluiu citando Paulo Freire: “Seria uma atitude muito ingênua esperar que as classes dominantes desenvolvessem uma forma de educação que permitisse às classes dominadas perceberem as injustiças sociais de forma crítica”.

Seminário Integrado do GTPCEGDS

Desde quinta, 24, até sábado, 27, ocorre no Auditório do Colégio Técnico João XXIII, o I Seminário Integrado do Grupo de Trabalho de Política de Classe para as Questões Étnico-raciais, de Gênero e Diversidade Sexual (GTPCEGDS) do ANDES-SN.

 

Texto: Bruna Homrich, com informações do ANDES-SN

Fotos: Bruna Homrich

Assessoria de Imprensa da Sedufsm



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