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15/01/2018   16/01/2018 14h31 | A+ A- | 473 visualizações

Cientista político vê pouca chance de Temer não terminar o mandato

Professor Reginaldo Perez avalia que Presidente tem sido mais feliz no “trato com o parlamento”


Perez: conjuntura ainda encontra-se aberta ao discurso antipolítico

Se os anos de 2016 e 2017 foram pródigos de emoções, com o impeachment de Dilma Rousseff (2016), e as sucessivas crises que engolfaram o governo de Michel Temer (2017), que enfrentou a duas denúncias da Procuradoria-geral da República, e mesmo assim se manteve no cargo, o ano de 2018 não deverá ser menos intenso. O chefe do Executivo Federal chega ao último ano de seu mandato-tampão como um dos governos mais impopulares da história. A economia patina e as denúncias contra Michel Temer e seus assessores se avolumam. É possível suportar até o final deste ano?

Na avaliação do cientista político Reginaldo Teixeira Perez, professor do departamento de Ciências Sociais da UFSM, há poucas chances de Temer não encerrar a sua gestão. Para ele, o Presidente da República, mesmo diante de graves acusações, como as que foram imputadas nas denúncias de Rodrigo Janot (PGR), conseguiu manter-se no cargo, logo, talvez seja pouco provável que alguma denúncia mais contundente ainda possa surgir em tão pouco tempo que resta de mandato.

Questionado se Dilma Rousseff teria caído pelo fato de não ter maioria parlamentar, Perez lembra que a então Presidente teve durante um bom tempo maioria no Legislativo. Contudo, o professor ressalta que o desgaste do governo da petista conjugou, nos últimos anos da gestão dela, de 2013 a 2015, crise política com crise econômica. O cientista político cita ainda como fator que agudizou a crise, a “irresignação” da oposição com o resultado eleitoral de 2014 (especialmente o PSDB). Ele sublinha, entretanto, que a prática demonstra que Michel Temer tem conseguido “melhor trato” com o Legislativo do que Dilma.

Eleições 2018

No que se refere ao processo eleitoral, que segundo as pesquisas de opinião, encontram-se à frente na preferência dos pesquisados, os nomes de Lula da Silva e Jair Bolsonaro, Reginaldo Perez avalia que o quadro encontra-se indefinido, por isso a dificuldade em fazer qualquer prognóstico. O professor lembra que Lula ainda depende, para ser candidato, do julgamento que se dará em 24 de janeiro, no Tribunal de Porto Alegre (TRF-4), enquanto Bolsonaro, que tem aparecido em destaque nas sondagens de institutos, conta com uma estrutura partidária fraca, o que também se refletirá no tempo em rádio e TV.

Em relação à esquerda propriamente dita, excetuando o caso de Lula não concorrer, o analista vê dificuldades em termos de consistência eleitoral. No entendimento de Perez, no caso de um candidato mais à esquerda chegar ao segundo turno, há um obstáculo bastante grande para a vitória, tendo em vista o atual cenário político do país, que ele considera de “excitação”, ou seja, de posições bastante adversas a discursos com ideologia de esquerda.

Em relação à direita ou à centro-direita, o professor ressalta que há também dificuldades, seja por ainda não haver um nome que se destaque, que tenha simpatia popular, seja pelo fato de haver, na opinião pública, muitas restrições ao discurso das “medidas impopulares”. Todavia, Perez lembra mais uma vez que a conjuntura tem aberto espaço há extremos, a um discurso raivoso e antipolítico. Portanto, não são favas contadas que uma direita mais conservadora não tenha chances de êxito.

Acompanhe logo abaixo, a íntegra das perguntas feitas ao professor Reginaldo Perez e também as respostas, na entrevista concedida à assessoria de imprensa da Sedufsm:

Perez: "cidadão tem dificuldade em entender o trabalho do parlamento".

Sedufsm- Entre o final do primeiro semestre do ano passado e o início do segundo semestre havia um suspense em relação ao destino do governo Temer. Isso em função da avalanche de denúncias contra o Presidente, que culminou com duas ações da Procuradoria Geral da República pedindo a investigação do chefe do Executivo. Com maioria parlamentar, Michel Temer conseguiu manter-se no cargo, ainda que desgastado. Pode-se dizer, agora, que o Presidente se manterá até o fim no cargo?

Perez- Sim, com as suas duas vitórias políticas no Parlamento – denegando-se os pedidos de autorização à Câmara dos Deputados para investigar atos atribuídos ao presidente da República –, Temer parece ter demonstrado condições (políticas) de se manter no cargo até o final do ano. Observando-se a gravidade dos fatos narrados contra o presidente até agora, mesmo um eventual “fato-bomba” no início de 2018 [exemplo: delação premiada de Geddel Vieira Lima], não parece ter força suficiente, salvo melhor juízo, para colocar a sua situação em risco. O exame sobre eventuais responsabilidades do atual presidente sobre supostas ilicitudes deverá ocorrer somente após a sua saída de cargos que estejam cobertos por foro especial por prerrogativa de função (ou “privilegiado”).

Sedufsm- Podemos concluir, também, que se Dilma tivesse maioria parlamentar semelhante à de Temer, não teria sofrido impeachment?

Perez- Observe-se que Dilma teve maioria parlamentar durante a maior parte de seu primeiro mandato, mas a perdeu. Enquanto as coisas correram bem – em especial, na economia – a governabilidade se manteve em bom nível; depois, diante da proximidade das eleições no final de 2014, conjugaram-se crise econômica e crise política. A irresignação de setores da oposição com a derrota – com destaque para o PSDB – também merece registro. Mas parece que Temer tem sido mais feliz do que Dilma no quesito “trato com o Parlamento”. A propósito, para uma boa compreensão da crise que engolfou o governo Dilma, ouso sugerir a leitura do livro À Sombra do Poder - Bastidores da crise que derrubou Dilma Rousseff (São Paulo: Leya, 2016, 224 p.), de autoria de Rodrigo de Almeida, secretário de imprensa da ex-presidente.

Sedufsm- No que se refere à corrida eleitoral, Lula continua liderando as pesquisas, com Bolsonaro aparentemente se cristalizando em segundo lugar na preferência. Como explicar que um político de discurso tão extremista tenha tanto apelo popular?

Perez- Neste momento, janeiro de 2018, o quadro é extremamente indefinido. Muito difícil fazermos qualquer prognóstico. Mas, sim, os dois candidatos citados parecem pontuar as preferências eleitorais – até agora. No entanto, além de ser muito cedo, contra os dois, Lula e Bolsonaro, há barreiras não desprezíveis: contra Lula, conspira a sua situação jurídica; contra Bolsonaro, a fraca estrutura partidária e o (provável) pouco tempo no horário eleitoral gratuito na TV – sempre muito importante. Não se desprezem, igualmente, candidatos com potencial eleitoral próprio, como Ciro Gomes e Marina Silva – sem esquecermos de Geraldo Alckmin, governador de São Paulo. E ainda haveria candidaturas, segundo consta, de novatos: o ministro Meirelles, o atual presidente da Câmara dos Deputados Rodrigo Maia, e o animador de TV Luciano Huck. Esses os mais citados. Quanto ao radicalismo discursivo, algo observado na política brasileira nos últimos dois/três anos, penso que tenha muito a ver com o clima geral de insatisfações, que alcançou a política e a classe política como um todo, mas particularmente ao PT. Bolsonaro parece ter surfado nessa onda antipolítica e antipetista.

Sedufsm- Na sua avaliação, caso Lula seja impedido de concorrer, a centro-esquerda tem alguma possibilidade de ter um candidato competitivo?

Perez- Muito difícil essa previsão. Entretanto, penso que é a própria débâcle do PT – e das esquerdas em geral – que fez com que setores (ou candidatos independentes) e/ou partidos até então coadjuvantes se motivassem a participar agora com maiores pretensões. Nesse quadro de indefinições, o que se aventa como prováveis são: (1) um alto índice de “alienação eleitoral” (baixo interesse do eleitorado pelas candidaturas, em especial, do Parlamento); e (2) a ocorrência de um segundo turno nas eleições presidenciais. Neste caso, uma candidatura de centro-esquerda, com o atual clima de excitação no país – dependendo do adversário, é evidente –, provavelmente teria algumas dificuldades.

Sedufsm- Por que, na sua avaliação, a centro-direita tem tanta dificuldade em consolidar um nome? Fala-se em Alckmin, em Meirelles, em Rodrigo Maia, em Luciano Huck...mas nenhum deles parece engrenar.

Perez- Creio que seja muito cedo para afirmarmos que nenhum deles esteja engrenando. Mas, sim, penso que seja consistente a sua hipótese de que o espectro mais identificado com a “direita”, em regra, tenha dificuldades eleitorais. Enfrento o ponto mais detidamente. Há, basicamente, duas perspectivas ideológicas mais à “direita” – ou, como você se refere, ao “centro-direita”: uma, que acolhe os postulados do liberalismo econômico não dando igual ênfase aos valores do liberalismo político (o conceito de racionalidade é o seu núcleo); e outra que tempera de emoção o discurso a partir de negatividades lançadas à alteridade (aqui, não raro, o nacionalismo exerceu importante papel). Meirelles seria um bom exemplo do primeiro tipo; Bolsonaro seria um exemplo do segundo tipo. O primeiro discurso é mais caracteristicamente liberal; o segundo, mais conservador. Vai-se, nas duas linguagens, de uma posição de “centro-direita” (caso de Meirelles) aos limites da “direita” com a “extrema-direita”, caso de Bolsonaro. No Brasil, as “linguagens racionalizantes” apresentaram dificuldades eleitorais em diversas ocasiões (sobretudo quando sustentam reformas impopulares); mas, dependendo das circunstâncias, o cenário para um discurso excitado e raivoso não estaria fechado...

Sedufsm- Fala-se muito na eleição presidencial e na eleição ao Poder Executivo nos diferentes níveis. Entretanto, qualquer governante precisa de lastro junto ao Legislativo, que é um dos poderes mais desgastados da atualidade. Não se deveria falar mais, se discutir mais sobre as eleições legislativas?

Perez- Sim, sem dúvida. Ocorre que, no nosso caso, as ações do Poder Executivo têm mais visibilidade, notadamente em face do nosso sistema decisório. Quanto ao Parlamento, são atividades que exigem informações prévias e dificultam a compreensão do cidadão comum (é custoso acompanhar os debates). E isso se reflete no plano eleitoral. Ademais, vejam-se os números das candidaturas – sempre um grande número de pessoas disputando os cargos legislativos (que são em maior número) em comparação com poucas almejando os cargos executivos. Por fim, cabe referir as críticas desferidas contra a representação – em regra, as retóricas em favor da autenticidade, da verdade etc., cumprem essa função: o Parlamento é o palco da representação....

Entrevista: Fritz R. Nunes

Fotos: Arquivo

Assessoria de imprensa da Sedufsm



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