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17/01/2018   17/01/2018 17h37 | A+ A- | 415 visualizações

Temer sobrevive por falta de alternativa ao Capital, diz Coggiola

Professor de História também avalia motivos da esquerda moderada estar perdendo espaço


Coggiola não acredita em conspiração contra Lula, que deverá ter apoio da centro-esquerda

Até o final da primeira década dos anos dois mil, o que se observava era uma ascensão da esquerda, com maior ou menor moderação, na América Latina, em especial no continente sul-americano. Mais recentemente, no entanto, essa força parece ter se arrefecido, e aos poucos, governos com tintas esquerdistas perderam espaço. É o caso do grupo político ligado ao casal Kirchner, na Argentina, do afastamento de Dilma (PT) no Brasil, a grave crise enfrentada pelo governo chavista de Nicolás Maduro, na Venezuela, não esquecendo dos casos do Paraguai (Lugo) e Honduras (Zelaya). A que se deve isso? Para o economista e também professor de História da Universidade de São Paulo (USP), Osvaldo Coggiola, os governos ditos “progressistas” encontraram seus limites na mudança da conjuntura econômica mundial e, “pela incapacidade de enfrentar a nova fase da crise”, o “grande capital lhes baixou o polegar”.

Coggiola ressalta que o presidente Michel Temer, apesar da aprovação de apenas 3% da população e do raquitismo da economia, sobrevive por absoluta falta de alternativa em relação a outro nome para governar o país. Para o docente, nem mesmo os setores do “grande capital” teriam hoje uma alternativa para o lugar de Temer. No que se refere ao processo eleitoral deste ano, o historiador analisa que Lula lidera nas pesquisas de opinião por faltar no Brasil um “Macri”, se referindo ao presidente que se elegeu na Argentina derrotando o ‘kirchnerismo’. Para Coggiola, a falta de um nome de repercussão no PSDB levou a que se cogitasse, por exemplo, o nome de João Dória ou Luciano Huck, o que demonstra, na opinião dele, que há um certo desespero nesses setores.

Esquerda e movimentos

No caso de o ex-presidente Lula não ter a candidatura cassada e chegar ao segundo turno, Osvaldo Coggiola acredita que a maioria da esquerda votará nele. Contudo, ele percebe um grande “impasse” em setores da esquerda, exemplificando o Psol, em que estão colocados na mesa os nomes do professor Plinio Sampaio Jr. e Guilherme Boulos (líder do MTST). O grande mérito da candidatura de Plinio, segundo Coggiola, é o fato de ter posto no centro do debate a necessidade de, primeiramente, construir um programa. Para o professor da USP, o que o país precisa é de uma esquerda classista, com “um programa à altura da crise”.

Questionado sobre o papel de sindicatos e movimentos em relação à crise, e principalmente em relação às contrarreformas, Coggiola, que já foi diretor do ANDES-SN (Sindicato Nacional dos Docentes) e também da Associação dos Docentes da USP (Adusp), afirma que “ou retomamos a luta” ou “ficamos esperando o desfecho do processo contra Lula e as eleições de outubro, com a Copa do Mundo no meio.”

Acompanhe, logo abaixo, a íntegra da entrevista concedida, por e-mail, à assessoria de imprensa da Sedufsm:

Sedufsm- A esquerda moderada (ou conciliadora) vem sofrendo revezes na América do Sul. O kirchnerismo sofreu derrota para Macri na Argentina; Dilma sofreu impeachment no Brasil; no Chile, a direita venceu em eleição recente; na Venezuela, o chavismo, através de Maduro, enfrenta uma crise duríssima. O que tem dado errado na perspectiva de governos mais progressistas?

Coggiola- O básico é que os governos ditos progressistas encontraram seus limites na mudança da conjuntura econômica mundial. Na medida em que não romperam com a estrutura agroexportadora nem com o grande capital financeiro, e o ciclo de crescimento dos saldos comerciais e das arrecadações fiscais arrefeceu, a base para suas políticas (que não eram de redistribuição de renda, a concentração da renda total permaneceu pouco alterada) chamadas “populistas” se reduziu. O grande capital lhes baixou o polegar não por causa disso, mas pela sua incapacidade de enfrentar a nova fase da crise econômica mundial. E os derrubou, mediante golpes institucionais (Dilma, Zelaya, Lugo) ou eleições. O caso de Maduro é diverso (todos os casos são diversos) porque a direita burguesa não tem alternativas claras, e as Forças Armadas (decisivas nos casos de Dilma, Zelaya e Lugo) continuam chavistas.

Sedufsm- Reportando-se ao Brasil, a candidatura de Lula tem se fortalecido, ao menos segundo as pesquisas de opinião. Como explicar esse fenômeno diante da saraivada de denúncias e de já haver uma condenação em primeira instância do petista?

Coggiola- Lula continua em primeiro porque não há nenhum Macri na direita burguesa brasileira. Denúncias por corrupção, e até condenações, valem tanto quanto as que se faziam a Adhemar de Barros. Bolsonaro e Marina têm votos, mas não vencem Lula (ou um sucedâneo deste) no segundo turno, e o grande capital considera-os candidaturas aventureiras. Aécio (que perdeu de pouco em 2014) deu no que deu, e o PSDB até cogitou em João Dória para presidente, o que indica uma crise política que raia o desespero.

Osvaldo Coggiola vê recuperação pouco significativa na economia
 

Sedufsm- O professor acredita na narrativa de que há uma conspiração para que Lula não seja candidato?

Coggiola- Não é nenhuma conspiração, porque está em todos os jornais. O grande capital (FHC, por exemplo) sonha em derrotar Lula em eleições. Por enquanto, não sabe como, ou seja, não tem os meios políticos para recuperar plenamente o poder político e impor a reforma da previdência e outras semelhantes a toque de caixa. O que não significa que, se Lula concorresse e vencesse as eleições, a anularia (reforma previdenciária). Provavelmente a arquivaria, e proporia outra de conteúdo semelhante, mas forma diferente.

Sedufsm- No caso de Lula não ser candidato, que alternativas podem ser viáveis na esquerda ou na centro-esquerda?

Coggiola- Se Lula concorrer e chegar ao segundo turno (se houver), acho que toda a esquerda, com exceção do PSTU e grupos marginais, votará nele. O debate sobre a candidatura do PSOL (Plínio Jr. ou Guilherme Boulos) revela toda a crise e o impasse da esquerda. O mérito da oposição de Plínio a Boulos é o de ter posto no centro do debate a questão do programa, o que tem valor com independência do programa do próprio Plínio. A centro-esquerda vota no Lula ou em quem Lula indicar. Precisamos de uma esquerda classista com um programa à altura da crise (brasileira e mundial) e sem papas na língua.

Sedufsm- O que esperar do governo de (Michel) Temer, na política e na economia? Há base real para se dizer que o Brasil está saindo da crise?

Coggiola- Temer, com 3% de aprovação e uma crise econômica totalmente em pé, sobrevive com base na falta de alternativas, sobretudo de parte do grande capital. A “recuperação econômica” é pouco significativa, depois de ter tocado fundo e diante do tamanho da crise. A Folha de S. Paulo disse sobre os “novos empregos”: “Esses trabalhadores estão por toda parte. Vendem sanduíches na praia ou bombons em porta de faculdades. Carregam caixas de isopor com marmitas na calçada de empresas no intervalo do almoço. Montam barracas pela manhã para vender café com leite em locais de grande fluxo, como portas de hospitais ou terminais de ônibus”. Alguém comentou, corretamente: “É instigante imaginar o futuro dessa ‘economia do empreendedorismo, com o rapaz do cachorro-quente fazendo escambo com a tia do bolo de fubá”.

Sedufsm- Depois de uma greve geral exitosa, em 28 de abril de 2017, os outros protestos, ao longo do ano, não tiveram o mesmo alcance e poder de pressão. A que se deveu isso, na sua avaliação, e qual saída para o fortalecimento de sindicatos e movimentos sociais?

Coggiola- O adiamento da votação da reforma previdenciária foi apresentado como vitória decisiva. Houve uma conjuntura desfavorável logo após o impeachment que culminou com a imposição da “PEC do Fim do Mundo” em 15 de dezembro de 2016, outra diversa com a onda de mobilizações em março de 2017 contra a reforma da previdência e que se estendeu até a greve geral de 28 de abril, e agora uma nova, marcada pela retomada da ofensiva burguesa com a aprovação sem resistência da reforma trabalhista em 11 de julho do ano passado. O governo perdeu inicialmente o debate da reforma da previdência e foi obrigado a recuar diante das mobilizações massivas. Mas, a burocracia sindical (principalmente a CUT) adiou por dois meses a continuidade da mobilização contra as reformas, marcando a próxima greve geral só para o dia 30 de junho, negociou com o governo o imposto sindical (agora "contribuição negocial") e não deu batalha contra a reforma trabalhista. Esse contexto político possibilitou ao governo aprovar a contrarreforma trabalhista, a minirreforma política e livrar-se da segunda denúncia da Procuradoria Geral da República por formação de quadrilha e lavagem de dinheiro. Ou retomamos a luta, ou ficamos esperando o desfecho do processo contra Lula e as eleições de outubro, com a Copa do Mundo no meio. E, na esquerda, o debate sobre uma alternativa de classe independente.

Entrevista: Fritz R. Nunes

Foto: Arquivo/Sedufsm

Assessoria de imprensa da Sedufsm



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