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23/03/2018   26/03/2018 17h20 | A+ A- | 1728 visualizações

Visita de Lula à UFSM continua gerando polêmica

Estudante move ação contra “comício” na instituição. Coordenadora do DCE defende diálogo político


Favoráveis e contrários à presença do ex-presidente Lula na UFSM no meio da confusão

A passagem pela UFSM, do pré-candidato à presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na última terça, 20, continua rendendo polêmica. Afora as escaramuças durante a passagem da comitiva, com Lula, Dilma, e outras lideranças petistas, ocorridas no campus de Camobi, em que se destaca a imagem de um opositor aos petistas agredindo um simpatizante de Lula com um relho, existem iniciativas jurídicas em debate. Ao menos uma, que se saiba, busca uma punição ao reitor Paulo Burmann, pelo fato de o ex-presidente ter sido recebido (na condição de futuro candidato) dentro de uma instituição de ensino superior pública. Contudo, uma das coordenadoras do DCE, ouvidas pela assessoria de imprensa da sedufsm, não apoia esse tipo de medida jurídica, e defende o diálogo da universidade com os pré-candidatos.

Conforme o material divulgado pela assessoria de imprensa do gabinete do reitor, o encontro com Lula faz parte de um projeto, em que os gestores pretendem se reunir com pré-candidatos à Presidência da República, para entregar um documento com as reivindicações que pretendem ver atendidas em relação à educação superior do país. No evento de Santa Maria, além da cúpula da UFSM, também estiveram presentes, pela Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), o reitor Jaime Giollo; do Instituto Federal Farroupilha (IFFar), a reitora Carla Comerlato Jardim; do Centro de Ensino Superior Rio-Grandense, Rafael Rossetto; do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), José Eli Santos dos Santos; e o representante do reitor da Universidade Federal do Pampa (Unipampa), Cristian Wittmann. Leia mais aqui sobre a carta de reivindicações entregue a Lula e sua comitiva.

Chegada de Lula na UFSM
 

Em que pese a justificativa para o encontro, que teve o apoio de centenas de pessoas, entre sindicalistas, estudantes, técnicos e professores, que estiveram na recepção ao ex-presidente e sua comitiva no campus, há também quem discorde frontalmente da iniciativa. É o caso de Carmem Dickow, professora de Química da UFSM.

Em seu perfil em rede social, Carmem publicou: “Ah, então porque estuda em IES pública tem que aplaudir o Lula? Não mesmo. Quem trabalha em IES sabe...O PT teve sua oportunidade e mostrou que não mereceu. Começando pela aliança com o PMDB.” E acrescenta: “E antes que falem ‘ah, então apoia o Temer...’ Não! Não votei no Lula e, portanto, não tenho nada a ver com o vice que agora está no poder.” A professora encerra seu desabafo afirmando que “por mim, nenhum pré-candidato precisa vir na UFSM”.

Canais de diálogo

O cientista político e professor do departamento de Ciências Sociais da UFSM, Cleber Martins, tem uma visão diferente sobre a polêmica da visita. Para ele, “a universidade deve estabelecer canais de diálogo com lideranças políticas e sociais. Faz parte do processo, considerando que é relevante, resguardada a autonomia da instituição, que a universidade aproxime-se dos debates e questões que envolvem a política brasileira.” Na avaliação de Martins, “o ex-presidente Lula é uma liderança das mais importantes do país que, mesmo envolvida em um controverso processo jurídico, deve ser tratada com respeito”.

Investigação

A vinda da comitiva do ex-presidente Lula à UFSM pode gerar, inclusive, um procedimento de investigação junto ao Ministério Público Federal (MPF). A iniciativa tem sido divulgada via mídias sociais, pelo estudante de Direito da UFSM, Giuseppe Riesgo. Em seu perfil no facebook ele postou vários textos e vídeos criticando o fato de Lula e demais petistas terem sido recebidos pelo reitor, e que foi apoiado por dezenas de pessoas.

Riesgo, que se identifica como integrante da SFLB (Students for Liberty Brasil), disse na rede social na quinta, dia 22:

O Reitor Paulo Afonso Burmann abriu os braços e o sorriso para sentar-se ao lado de um condenado; de uma presidente impeachmada e de frente para a Presidente do partido que mais roubou o país - a Senadora indiciada por corrupção, Gleisi Hoffmann. Do lado de fora da Reitoria, onde a quadrilha foi recebida, acontecia um comício, com carro de som, gritos de guerra e chamada para a eleição de outubro. Sim, um comício na Universidade Federal de Santa Maria”.

Para o estudante, a reunião ocorrida na sala dos Conselhos da UFSM “é ilegal, imoral e não pode ficar assim. Hoje fui ao Ministério Público Federal e ao Ministério Público Eleitoral protocolar o pedido para que se inicie uma investigação contra o Reitor por ter cometido - em tese - improbidade administrativa, ou seja, mau uso dos bens da Universidade Federal que ele deveria representar com decência.”

DCE

A integrante da coordenação geral do DCE da UFSM, Saritha Vattathara, discorda de iniciativas, como a do estudante de Direito, que visam judicializar o encontro dos reitores com o ex-presidente Lula. Para ela, universidade tem que estar aberta para dialogar com todos os pré-candidatos e discutir suas propostas e plataforma de governo. No caso específico da vinda do presidente Lula, diz Saritha, isso é imprescindível, visto que a vinda dele representa não só o projeto que, quando estava no governo, possibilitou verba para viabilizar a instituição, mas também a concepção de que a universidade é pública e a educação é um direito de todos. E acrescenta: "não foi um comício político, mas sim uma reunião política entre reitores e dois ex-presidentes para debater a educação."

Enfrentamento físico

A passagem da caravana do ex-presidente Lula pelo RS gerou não apenas ações no campo jurídico. As divergências de prós e contras levaram a enfrentamentos físicos em Bagé, São Borja, Cruz Alta. E, em Santa Maria, apesar do clima favorável com que foi recebido no comício do bairro Nova Santa Marta, o mesmo não ocorreu na UFSM, em Camobi. No campus universitário, o clima foi de muita tensão, conforme registrado pelos meios de comunicação presentes, especialmente pelo jornalista da assessoria de imprensa da Sedufsm, Rafael Balbueno.

Vitor Biasoli, professor aposentado do departamento de História da UFSM, esteve no local e se disse “arrepiado” com o que viu. Biasoli chegou a fotografar a movimentação dos favoráveis e contrários a Lula. Afora a agressão com o relho (espécie de chicote), que ele não chegou a presenciar, os dois grupos tiveram várias vezes na iminência de se enfrentarem. O clima só ganhou um pouco de serenidade depois que homens da cavalaria da Brigada Militar separaram os contendores.

Radicalização da disputa política

O clima de beligerância política não é uma novidade na conjuntura política brasileira. Para o professor da UFSM, Cleber Martins, “a radicalização da disputa política, com frequência, vem se caracterizando por agressividade e violência, tanto do ponto de vista do discurso, quanto na efetivação de atos violentos em si. O assassinato da vereadora do PSOL do Rio de Janeiro, Marielle Franco, é o símbolo disso.”

Especificamente em relação à caravana do ex-presidente Lula em solo gaúcho, o cientista político avalia que “os atos de repúdio, com frequência, ultrapassaram os limites da oposição previsível em democracias representativas”. Para Martins, “o uso da violência como estratégia de ação política, embora corriqueiro, coloca as divergências e discordâncias em um contexto bastante arriscado, levando em conta que as democracias representativas operam, do ponto de vista formal, com um modelo no qual as diferentes posições políticas sejam resolvidas no âmbito do debate público, considerando as garantias constitucionais de liberdade de expressão e organização, e do processo eleitoral.”

Para o professor Cleber Martins, “quando atos violentos, discursivos e físicos, ganham ênfase, além de rebaixar o debate público da pluralidade das posições políticas, abrem caminho para posturas autoritárias não condizentes com os princípios democráticos.” E finaliza: “resolver as divergências através do uso da força estabelece no país um cenário no qual a política passar a ter, de forma predominante, uma característica de belicosidade que opera no sentido contrário da competição política plural e regrada.”


Comitiva de Lula começa a deixar o prédio da reitoria da UFSM

(ver mais fotos abaixo, em anexo)

Texto: Fritz R. Nunes

Fotos: Rafael Balbueno

Assessoria de imprensa da Sedufsm



Fotos



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Comentários



Alcides Adornes disse...

Dia 29/03/18 às 14:55

Democracia exige diálogo. Isto significa que temos que conviver com o contraditório. Quanto a UFSM receber com respeito o ex-presidente Lula e sua comitiva é apenas uma obrigação democrática, mas vale apena lembrar que hoje existem duas UFSM, uma criada por Mariano da Rocha, que foi alvo de uma tentativa impiedosa de privatização durante o governo do FHC, e outra UFSM resultado dos governos lulopetista, que mais do que duplicou o número de alunos e democratizou o sistema de ingresso.



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