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09/04/2018   09/04/2018 20h55 | A+ A- | 138 visualizações

O Brasil (e o funcionalismo público) no meio do turbilhão

Mesa sobre conjuntura política marcou último dia do Seminário do GTSSA


Eleições e superação do programa democrático popular estiveram em pauta.

“Conjuntura política”. Talvez nunca antes tenhamos ouvido tanto esse termo que se refere, basicamente, à série de elementos e personagens que compõem nosso sistema político e à dinâmica (geralmente conflituosa) entre eles. Parece simples, correto? Não. Pois foi justamente sobre esse tema complexo (em especial nos últimos tempos) que o seminário “Servidor Público: um peso para a sociedade?” se debruçou em um dos seus últimos atos. Promovido pelo Grupo de Trabalho de Seguridade Social (GTSSA) da Sedufsm, junto com seções sindicais do ANDES-SN no RS e mais o Sinasefe, o seminário teve início na quinta-feira, 05, no Hotel Morotin, e desde sua abertura discutiu temas como movimentos sociais na américa latina, direitos adquiridos e perdas, carreiras no funcionalismo público federal e educação, entre outros temas.

Mas na tarde desta sexta (06), como já dito, o que movimentou os debates foi a famigerada “conjuntura política”. E para a realização da mesa VI o seminário contou com dois convidados: Marcos Verlaine, do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), e o 1º vice-presidente do ANDES-SN e membro da coordenação do GTPFS, Luis Eduardo Acosta. Em suas falas, Verlaine e Acosta avaliaram o momento brasileiro e não se privaram em apontar quais são, na opinião de cada um, as perspectivas que se colocam para um futuro bem próximo – e como devemos reagir a algumas delas.

Eleições 2018

Para o primeiro painelista da mesa, o analista político e assessor parlamentar do Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (DIAP), Marcos Verlaine, as eleições presidenciais de 2018 serão um ponto nevrálgico de toda a conjuntura que se acumula até então. Segundo Verlaine, a impossibilidade de uma candidatura do ex-presidente Lula já deve ser dada como certa, e é justamente por essa ausência que passará diretamente a disputa no próximo pleito. Lula, aliás, recebeu diversas menções durante a mesa, tendo em vista que sua prisão vivia momentos definitivos enquanto o debate acontecia. Além disso, também na sexta foi divulgada nota do ANDES-SN sobre a prisão, que pode ser conferida aqui.

A respeito da prisão de Lula – e da impossibilidade do ex-presidente de concorrer – Verlaine defendeu que esses acontecimentos são extremamente impactantes para a o próximo processo eleitoral. Do ponto de vista pragmático, a ausência de Lula representará, segundo o palestrante, muitas candidaturas e não apenas no campo da esquerda. Sem Lula a tendência é de que muitos partidos se lancem na disputa na tentativa de ocupar esse espaço vago e na expectativa de que os votos se pulverizem. Já da perspectiva da disputa política em si, tanto o impeachment de Dilma quanto a prisão de Lula, acontecimentos que representam como a pauta da corrupção está sendo abordada, também devem impactar nas eleições. Conforme destacou Verlaine, “a direita brasileira, para destruir o PT e o Lula, destruiu a política”, e nesse cenário a presença de candidatos que não se apontem como políticos tradicionais ou representem esses valores, devem lograr algum apelo popular, embora a um preço bastante caro. “A negação da política criou esse caos que está aí”, afirmou o representante do DIAP.

Dando sequência a seu raciocínio, Verlaine apresentou à plateia 6 perguntas que, conforme defendeu, ajudam a traçar o cenário da próxima disputa eleitoral.

  1. Continuidade ou renovação?
  2. Projetos e visões em disputa. Qual irá prevalecer?
  3. Como o eleitor votará?
  4. Principais demandas da população. Quais irão prevalecer?
  5. Divisão do eleitorado. Quem o lidera em suas localidades?
  6. Condições para disputar a eleição. Quem vai ganhar?

Essas perguntas, segundo o analista do DIAP, permitem que cheguemos a algumas conclusões. Por exemplo no que toca o “ambiente” que se coloca, para Verlaine, a palavra de ordem da vez é renovação, com sérios riscos para aqueles que tentarem representar a situação ou a continuidade dos modelos mais tradicionais de política. E nesse cenário se encaixam muito bem figuras como a do deputado federal pelo Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro (PSL), pré-candidato à presidência da república. Segundo Verlaine, Bolsonaro tem muito bem definida a estratégia de negar tudo: partidos, ideologias, debates, dados e estatísticas e por aí vai. “A novidade nessa eleição é que implodiram a política. E nesse ambiente pode acontecer tudo, inclusive nada”, brincou o palestrante. Contudo, apesar do risco de que se aconteça “tudo”, Verlaine não crê na possibilidade de Bolsonaro ser eleito. Segundo ele, o pré-candidato não representa os interesses da elite brasileira. “Bolsonaro só consegue manter esses índices se a burguesia brasileira não tiver um candidato, e ela vai ter”, afirmou o palestrante, destacando que o governador do estado de São Paulo, Geraldo Alckmin (PSDB), será o candidato da elite brasileira.

No que toca aos projetos e visões que estarão em disputa – também uma das 6 perguntas da lista do palestrante –, Verlaine resume em três as possibilidades que concorrem na disputa eleitoral que se aproxima: estado de proteção social (com algum apelo, dada a desigualdade social do país, mas cujo principal representante, que é Lula, está fora da disputa); estado liberal fiscal (com pouco apelo perante o eleitor por conta de medidas nada populares que defende); e estado penal (com algum apelo, já que é o “estado policial” e vivemos crises na segurança pública). Aliás, falando em segurança, conforme Verlaine, aí está uma das grandes demandas que serão trazidas pelo eleitorado no próximo pleito – e outra entre as seis perguntas do questionário. Para além dela deverão estar questões como inclusão social, ordem, defesa da família, ética e estabilidade macroeconômica.

Próximo ao fim de sua fala e após responder essas perguntas, o analista político do DIAP destacou 6 pontos que em sua visão dialogam com os anseios da população perante o próximo processo eleitoral. Para Verlaine, basilados por confiança e esperança, as candidaturas com chances reais no próximo pleito deverão atender e atentar a 1) tempo de rádio e TV; 2) palanques forte nos estados, 3) recursos financeiros; 4) mídias sociais, 5) carisma; e 6) não estar envolvido em denúncias. Assim, segundo Verlaine, deve se desenhar a sucessão no cargo mais alto da república.

A crise da conciliação

Já na abertura de sua fala, o segundo palestrante da noite, o 1º vice-presidente do ANDES-SN e membro da coordenação do GTPFS, Luis Eduardo Acosta, pontuou que pretendia abordar a conjuntura de duas perspectivas: a conjuntura imediata do último período (e dos últimos dias), mas também a crise do programa democrático popular (PDP) ou da nova república – sem deixar de lado uma breve pincelada na crise internacional do capitalismo. Segundo o professor, essa segunda etapa é imprescindível já que o momento que vivemos é, para além do caos da superfície, também um momento de passagem de uma época para outra – de um projeto político para outro.

Iniciando sua fala, Acosta também fez menção à (naquele momento) iminente prisão do ex-presidente Lula. O fato de naquela tarde histórica um grupo de trabalhadores, especialmente do funcionalismo público, estar discutindo a conjuntura, foi uma coincidência bastante saudada pelo docente. Para além disso, conforme destacou, a prisão de Lula tem um significado simbólico bastante importante para a esquerda brasileira. “Lula é um símbolo nosso, querendo ou não”, declarou Acosta.

No que toca a conjuntura mais imediata, o 1º vice-presidente do ANDES-SN apontou toda a preocupação que já era esperada. Afinal, para além de ataques simbólicos existem também aqueles de ordem prática, como toda a agenda de contrarreformas apresentada pelo presidente Michel Temer, com destaque para a reforma trabalhista, que Acosta descreveu como “um triunfo histórico da burguesia brasileira”. Nesse sentido, inclusive, o palestrante destacou também que os servidores públicos se enganam se pensam que estão plenamente a salvo nesse cenário. Tais contrarreformas, para o professor, cumprem o papel fundamental de construir uma lógica de que o orçamento do Brasil não suporta um estado de bem-estar social. Além disso, segundo o professor, há um outro capítulo nefasto da atual conjuntura, que se soma a retirada de direitos e atinge níveis muito preocupantes: a intimidação. Para o docente, o assassinato da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, no Rio de Janeiro, é a expressão mais drástica dessa tentativa de impregnar o medo. “O assassinato da Marielle é um recado de que se a esquerda for à luta, vai ter troco, e isso é muito preocupante”, apontou Acosta, mencionando também os ataques à caravana do ex-presidente Lula como exemplos desses atos. “A direita quer mostrar o que acontece com um candidato de esquerda moderado. Nem sequer isso a direita permite”, declarou. Além disso, trazendo um pouco dessa violência para o campo da educação, o professor lembrou também de todos os processos contra as disciplinas que estão sendo sugeridas ao redor do Brasil, com o objetivo de discutir o impeachment de Dilma Rousseff. “Nós também estamos sendo intimidados em nossas universidades, em nossos cursos e querem acabar com o pouco pensamento crítico que há. Nós, que estamos lá, sabemos que é uma exceção, que o que mais existe é o pensamento conformista, o pensamento do empreendedorismo acadêmico, e o pouco pensamento crítico está sendo intimidado também por esse cenário que estamos atravessando”, concluiu o dirigente do ANDES-SN.

Dando sequência a sua exposição, Acosta partiu então para a análise da conjuntura a partir do que chamou de “crise do programa democrático popular (PDP)”. Para o docente, o atual momento é marcado também pelo ruir desse modelo que, em suas palavras, é caracterizado pela promoção da conciliação entre as classes. E para que essa conciliação seja possível, segundo Acosta, é necessário que o governo – no caso as experiências recentes do PT – mantenha uma relação promíscua com os grandes capitalistas brasileiros. Para o professor, um dos fatores a serem analisados na atual conjuntura, é de que a paz, nessa relação, acabou.

Por isso, para Acosta, é fundamental que a esquerda brasileira pense e pratique um projeto que supere o PDP e coloque a classe trabalhadora em um outro patamar de lutas. Tarefa que urge, inclusive, para enfrentar o atual momento e aquele que se avizinha. “Hoje nós estamos sofrendo as consequências do apassivamento que a própria base do PT construiu durante os anos de governo. Perdemos direitos sociais, estamos perdendo direitos políticos e a CUT (Central Única dos Trabalhadores) só lança notas”, criticou o docente. Além disso, Acosta destacou que, da perspectiva internacional, também é possível que estejamos vivendo um período de esgotamento do capitalismo, o que só embasa ainda mais a leitura de que é preciso superar o projeto de conciliação.

Seminário

A mesa VI “conjuntura política”, fez parte da programação do seminário “Servidor Público: um peso para a sociedade?”, que também teve atividades na quinta-feira, dia 05, e na manhã de sexta-feira, dia 06. O evento foi promovido pelo Grupo de Trabalho de Seguridade Social e Assuntos de Aposentadoria (GTSSA) da Sedufsm, em parceria com as seções sindicais do ANDES-SN em Pelotas (ADUFPel), Rio Grande (APROFURG) e Porto Alegre (UFRGS), além das seções do Sinasefe (Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica) em Santa Maria, São Vicente e Frederico Westphalen. Você pode conferir reportagens sobre as demais atividades do seminário aqui, aqui, aquiaqui e aqui, e em breve todas as mesas estarão disponíveis também em nosso canal do youtube. Você também pode conferir mais fotos do evento aqui.

Texto: Rafael Balbueno
Fotos: Júlia Maia (estagiária de jornalismo)
Assessoria de imprensa da Sedufsm



Fotos



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