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24/05/2018   24/05/2018 21h45 | A+ A- | 371 visualizações

Diferentes formas de olhar para o Maio de 68

Professores resgatam mobilizações francesas e resistência brasileira à ditadura


Mobilizações francesas de 1968 tiveram estudantes como o estopim

Ao digitarmos “Maio de 68” no Google e clicarmos na opção “Imagens”, deparamo-nos com fotografias cujos protagonistas são, em sua maioria, jovens portando cartazes ou de braços dados em manifestações de rua. De fato, as mobilizações encampadas pelos estudantes franceses da Universidade de Paris, em Nanterre, e depois espalhadas por toda a França, incluindo a Universidade de Sorbonne, são a face mais midiatizada do que ficou conhecido como o “Maio Francês”.

Em 2 de maio de 1968, a administração da Universidade de Paris decidiu fechar a escola e iniciou um processo de perseguição a estudantes envolvidos em protestos. Esse episódio é considerado a fagulha que ascendeu a juventude naquele momento. Contudo, para a professora do departamento de Direito da UFSM, Maria Beatriz Oliveira (Bia Oliveira), a “’memória oficial’ trazida especialmente pelas mídias coloca em evidência o movimento estudantil e as suas consequências socioculturais, mas normalmente oculta que em 13 de maio de 1968 iniciou-se na França a maior greve geral que aconteceu na Europa (ou em qualquer parte do mundo) e que contou com a participação de mais de 7 milhões de trabalhadores”, comenta ela.

A visão da docente vai ao encontro, por exemplo, da opinião de João Quartim de Moraes, docente aposentado do departamento de Filosofia da Unicamp que concedeu entrevista à edição de abril do jornal da Sedufsm. Para Moraes, a juventude francesa que se rebelava em fins dos anos 60 demonstrou, posteriormente, “total falta de compromisso com a esquerda e o movimento operário [...] Algumas das figuras que dirigiram, naquele momento, o movimento estudantil radical, alcançando notoriedade, transformaram-se em lacaios de luxo do capital”, afirma, sem papas na língua, o professor. A filiação de classe do movimento estudantil daquele 68 francês era, inclusive, conforme complementa Bia, à pequena-burguesia, pois à época apenas 30% dos jovens franceses chegavam ao Ensino Médio.

Bia diz, então, que as mobilizações de 1968 estariam reunidas em “dois Maios”: um Maio dos estudantes que protestavam a favor da liberdade de costumes (principalmente sexuais), da quebra dos padrões rígidos de comportamento e da tolerância em relação às diferenças; e o Maio da classe trabalhadora, responsável pela maior greve da história. “[...] a imagem de 1968 como ano revolucionário difundida pela mídia é parcial, pois é a imagem de um maio juvenil que encobre a forte luta operária daquele período que precisa ser resgatada”, atesta a docente do departamento de Direito.

Para quem ficou intrigado ou curioso sobre as críticas tecidas à visão midiática do Maio de 68 francês, Bia indica dois textos que aprofundam mais este ponto de vista: “Maio de  68, a não-revolução”, de Manuel Augusto Araújo, e “1968: a revolução do eu” de autoria de José Carlos Ruy.

“Ambos apresentam mais do que uma opinião ou reprodução de discurso de mídia, mas uma descrição crítica e embasada em diversos autores que analisam esse Movimento. O título de ambos os textos já denuncia o caráter crítico do conteúdo e, entre muitas coisas, procuram mostrar que o maio parisiense não foi um acontecimento isolado, mas representava o fim dos ‘anos dourados’ do pós-guerra, acumulando problemas e contradições que refletiam a acentuada queda na produtividade e na lucratividade nos países industrializados”, indica a docente.

Impotência das organizações proletárias

Embora tenha mobilizado milhões, o “Maio dos trabalhadores” revelou, na opinião de Bia, a impotência das organizações proletárias para formular saídas próprias à crise. Na falta de um programa autônomo da/para a classe trabalhadora, explica a docente, “prevaleceram as palavras de ordem antiautoritárias, subjetivistas e com ênfase na mudança de costumes, que foram características do movimento juvenil e das chamadas minorias”.

Enquanto isso, no Brasil...

Paris fervia quando o professor aposentado do departamento de Ciências Sociais da UFSM, Humberto Gabbi Zanatta, terminava o terceiro colegial no Seminário São José, em Santa Maria. Além de presidente do Grêmio Estudantil da instituição, também ocupava o cargo de vice-presidente da Associação Santa-mariense de Estudantes Secundaristas (USE), considerada por ele a entidade mais forte e politizada daquele período, haja vista que o movimento estudantil universitário era capitaneado por um Diretório Central dos Estudantes (DCE) conivente com os militares.

Quatro anos antes, em 1964, a União Nacional dos Estudantes (UNE) e as demais entidades estudantis passavam à ilegalidade pela lei Suplicy de Lacerda. Em 28 de março daquele 68, o estudante secundarista Edson Luís Souto era assassinado por policiais militares enquanto participava de uma manifestação estudantil no Rio de Janeiro. Um pouquinho mais tarde, em 26 de junho, a “Passeata dos Cem Mil” tinha a denúncia do regime militar como tônica principal. No mês de outubro, o 30º Congresso da UNE, realizado em Ibiúna (SP), terminou abruptamente com a invasão policial e a prisão de quase 100 mil estudantes. 13 de dezembro de 1968: general Costa e Silva decreta o Ato Institucional nº 5 (AI-5).

“Nós vivíamos uma realidade diferente da francesa, pois vivíamos uma ditadura. Havia um clima de repressão muito forte no país. Na América Latina, a memória da guerrilha era muito viva. A imagem de Che Guevara [assassinado em 1967] era muito forte. Em 66, o padre guerrilheiro Camilo Torres foi morto. Régis Debray [filósofo francês] estava pela América Latina. A Conferência de Medellín também foi nesse ano. Havia uma efervescência política em razão da repressão. Ou seja, havia um Brasil independente do Maio de 68 francês”, relembra Zanatta.

O professor, que já integrou a diretoria da Sedufsm, diz que a cidade de Santa Maria envolveu-se naquele cenário político muito mais através do movimento estudantil secundarista do que via universidade. E ele relembra um dos episódios mais marcantes daquele ano, quando grupos de direita deram um golpe em um evento organizado pela USE, cujo tema era a política estudantil.

“Quando chegamos [diretoria da USE], o local do evento [sede da Ação Católica em Santa Maria] estava lotado com estudantes dos Núcleos de Preparação de Oficiais da Reserva [NPOR] e o então presidente do DCE-UFSM vai para a mesa comandar a assembleia dos secundaristas. Foi, literalmente, uma virada de mesa por parte do DCE de direita”, resgata o docente, lembrando que não apenas o DCE da UFSM era ligado ao regime militar, mas o próprio reitor da instituição à época liderou uma procissão que rumou da praça Saldanha Marinho até a sede da 6ª Brigada de Infantaria Blindada [ou “Quartel do Sétimo”] e cujo objetivo era agradecer aos militares por terem livrado o Brasil do comunismo através do golpe de 1964.

“Santa Maria sempre foi, de certa forma, uma espécie de redoma, porque as autoridades universitárias da época faziam questão de que se mantivesse aqui uma ilha de não subversão... Tanto é que todos os presidentes do golpe de 64 deram aula inaugural ou fizeram visitas oficiais na UFSM”, recorda.

Além da USE, Zanatta comenta que setores da Igreja Católica engrossaram a resistência à ditadura em Santa Maria, a exemplo das juventudes católica estudantil, operária e agrária.

Antenados no mundo

Enquanto resistiam à censura e autoritarismo no coração do Rio Grande do Sul, Zanatta e seus companheiros não se desligavam das questões que estavam em pauta mundialmente. Através da televisão, dos jornais e, principalmente, do rádio, eles tinham acesso a notícias das fortes mobilizações contra a Guerra do Vietnã e em apoio aos direitos humanos – cabe lembrar que em 4 de abril de 1968, Martin Luther King era assassinado nos Estados Unidos.

Liberdade

“A mão que toca um violão, se for preciso faz a guerra...”. Zanatta cantarola “Viola Enluarada”, composição dos irmãos Paulo e Marcos Valle, lançada em 1967 e ilustrativa da entrada da arte e da cultura nas trincheiras resistentes à ditadura. Não obstante a realidade brasileira estivesse distante da francesa naquele 1968, o professor destaca a influência dos movimentos de libertação da juventude europeia no Brasil.

“Nossas ideias eram de liberdade e luta contra ditadura. A gente exultava com os tanques sendo parados pelos estudantes durante a Primeira de Praga [1968]”, diz o docente, mostrando que, resguardados seus respectivos momentos políticos, a resistência francesa [e de demais países da Europa e do próprio Estados Unidos] não deixou de influenciar a juventude e a classe trabalhadora brasileiras.

Bia Oliveira, embora conserve críticas a um caráter limitado das mobilizações francesas de Maio de 68, destaca a importância de se olhar, 50 anos depois, para tais experiências: “[...] nesses tempos obscuros nos quais vivemos, necessita ser resgatada a memória de todas as lutas de caráter popular e progressista. Não esqueçamos que em maio de 1968, enquanto os estudantes franceses levantavam barricadas e o trabalhadores faziam a maior greve da história, no Brasil mergulhávamos na ditadura Civil-militar que duraria 21 anos, e, hoje,  mergulhamos em uma ditadura jurídico-parlamentar-midiática que se aprofunda e não sabemos quanto tempo vai durar”, conclui a docente.

 

Texto: Bruna Homrich

Imagens: Carta Maior; Arteref; Revista Fórum, Combate Racismo Ambiental, Bruna Homrich e Ivan Lautert, respectivamente

Assessoria de Imprensa da Sedufsm



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