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10/08/2018   10/08/2018 18h06 | A+ A- | 516 visualizações

Santa Maria em luta contra o feminicídio neste sábado, 11

Delegada Débora Dias fala sobre esse tipo de crime, causa de 12 mortes diárias, em média, no país


Débora Dias: o que mata as mulheres não é o amor, mas o machismo

25.04.2018. Homem mata companheira e sogra a facadas na zona norte de Porto Alegre. Crime teria sido cometido pois o suspeito não aceitava o fim do relacionamento. (Correio do Povo)

20.05.2018. Homem mata a companheira a tiros no norte do RS. Casal estava em processo de separação. (Gaúcha ZH)

05.04. 2018. Homem mata companheira dois dias após ela dar à luz filha do casal em SP. (UOL)

07.06.2018. Homem descumpre medida protetiva e mata a companheira a facadas. “Depois de a mulher negar ter interesse no relacionamento, ele a ameaçou e destruiu diversos objetos da casa”, diz trecho da matéria. (Correio Braziliense)

09.08.2018. Doze mulheres são vítimas de feminicídio nos últimos oito dias. (R7 Notícias)

10.08.2018. Horas antes de ser morta em SC, designer relata ameaça de ex: 'Ele sacou a arma e apontou para a minha cabeça'. (G1 Notícias)

09.07.2018. Oficial de cartório de Imbituba é acusado de matar a namorada. (G1 Notícias)

 Notícias como essas são apenas exemplos de crimes que, diariamente, permeiam as páginas dos jornais e sites informativos. Quem se encorajar a um levantamento dos casos noticiados apenas neste primeiro semestre de 2018, talvez não dê conta de tudo, dado o volume de publicações. A última manchete descrita acima refere-se ao assassinato de Isadora Viana Costa, santa-mariense de 22 anos morta pelo namorado, de 36, com golpes no abdômen.

            A família de Isadora reside em Santa Maria e decidiu organizar, com o apoio de coletivos feministas, sindicatos e entidades sociais, uma manifestação em denúncia aos crimes de feminicídio. O ato ‘Justiça para Isadora’ ocorre neste sábado, 11, a partir das 14h, na Praça Saturnino de Brito (Praça dos Bombeiros). Em entrevista à Sedufsm, o pai de Isadora, Rogério Froner Costa, diz que o objetivo da mobilização é transformar a dor em um grito por justiça, de forma a que crimes como o que vitimou sua filha não mais acometam as meninas e mulheres.

            O ato deste sábado contará com diversas apresentações artísticas e distribuirá erva mate e água quente aos presentes. Para ler mais, clique aqui. Abaixo, ouça um pouco do que Rogério tem a dizer: 

Mas, o que o assassinato de Isadora e o de todas as outras mulheres cujas mortes foram acima descritas têm em comum?

 Segundo o Instituto Patrícia Galvão, “feminicídio é o assassinato de uma mulher pela condição de ser mulher. Suas motivações mais usuais são o ódio, o desprezo ou o sentimento de perda do controle e da propriedade sobre as mulheres, comuns em sociedades marcadas pela associação de papéis discriminatórios ao feminino, como é o caso brasileiro”.

Isadora e grande parte de meninas e mulheres mortas diariamente no Brasil são vítimas do feminicídio, tendo morrido pelo simples fato de serem mulheres em uma sociedade marcada pela cultura machista. Conforme levantamento realizado pelo G1 Notícias, doze mulheres são assassinadas por dia no Brasil, em média. Apenas em 2017, o país registrou 4.473 homicídios dolosos de mulheres (aumento de 6,5% em relação a 2016); desses, 946 são feminicídios. Contudo, os casos de feminicídio são considerados subnotificados, ou seja, morrem muito mais mulheres vítimas do machismo do que o indicado nos dados.

Como se pode ver nas manchetes que iniciam este texto, a maioria dos feminicídios são efetivados por companheiros ou ex companheiros das vítimas, fato que alerta para a situação de violência vivida pelas mulheres dentro de suas próprias casas.

Embora muitos desses crimes ainda sejam noticiados pelos veículos de comunicação como crimes ‘passionais’, a delegada Débora Dias, da Delegacia Especializada de Apoio à Mulher em Santa Maria, diz que os assassinatos nada têm a ver com amor.

“Essa ideia errônea de que ‘amor está ligado a matar a mulher’ é um grande absurdo. Assassinar alguém não está relacionado com amor, está relacionado com posse, com poder, com subjugação, com sentimento de propriedade e posse. Não se usa mais o termo passional para a morte de mulheres que morrem nas mãos de seus companheiros, porque passional está ligado a paixão, a amor, e tirar a vida de uma pessoa está diametralmente oposta a esse sentimento. Na verdade, o homem, quando mata a mulher, não imagina que ela, ‘sua mulher’, sua propriedade, possa ser feliz sem ele, estar desvinculada de sua subordinação”, reflete a delegada.

Homens comuns

  Ao se defrontar com relatos cruéis de feminicídio, muitas pessoas comentam ‘este homem é um monstro’. Esta visão, contudo, pode ofuscar a ideia de que a esmagadora maioria dos agressores e feminicidas são homens comuns que têm ou já tiveram relacionamento com a vítima.

 Em todo seu tempo à frente da Delegacia de Polícia da Mulher, Débora diz não lembrar de um único caso em que o autor de um feminicídio tivesse problemas psiquiátricos ou comportamentais graves a ponto de justificarem o crime e tornarem-no não passível de punição.

“Feminicídio é o ápice da violência doméstica, da violência de gênero, não é fato isolado e raramente está associado a qualquer patologia do autor do crime. Infelizmente o que mata as mulheres é o machismo sim, e a grande maioria morre porque diz não, ‘não quero mais esse relacionamento, não quero mais esse casamento, esse namoro’, é essa a sentença de morte. A defesa (defesa técnica, o advogado) pode suscitar problemas psiquiátricos, mas isso tem que ser provado e é muito difícil. Agora está na ‘moda’ dizer que o assassino ‘surtou’. Não vemos mulheres surtando e matando seus companheiros, ex-companheiros, namorados, etc. Não é estranho? Não há justificativa para matar mulheres em razão de gênero. O machismo ainda está incrustado em nossa sociedade”, desabafa a delegada.

Alerta

Débora alerta para que as mulheres fiquem atentas a sinais de relacionamento abusivo, como quando o homem apresenta excesso de ciúme e de domínio e tenta isolar a mulher da família e dos amigos, interferindo em suas decisões, desvalorizando-a. “Esses são sinais de violência que podem ou não partir para uma violência física e chegar ao ápice que é o feminicídio. Temos que ter muito cuidado. Não admitir qualquer tipo de abuso. Merecemos ser felizes e respeitadas, quem não nos respeita, não nos ama e ponto, simples assim”, diz a delegada.

PARA DENUNCIAR:

Denuncie, de forma anônima e gratuita, ligando para o 180; 197 (Polícia Civil); 190 (Brigada Militar). Ou, ligue diretamente para a Delegacia Especializada no Atendimento à Mulher, nos números 3217-4485 e 3222-9646.

“Em briga de marido e mulher deve-se meter a colher sim, em briga de marido e mulher o Estado deve intervir”, defende Débora Dias.

Texto: Bruna Homrich; Edição: Fritz Nunes

Foto: Divulgação

Vídeo: Ivan Lautert

Assessoria de Imprensa da Sedufsm



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