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21/08/2018   21/08/2018 18h06 | A+ A- | 165 visualizações

Jornadas de junho de 2013 e a construção da polarização política

Cultura na Sedufsm debateu o legado dos protestos que abalaram o país


Mesa de debates com Pablo Ortellado (e), Liliane Brignol e Alexandre Haubrich

A noite fria desta segunda, 20 de agosto, foi palco de um debate que voltou no tempo: cinco anos atrás, no inverno de 2013, quando as jornadas de junho se tornaram o evento de maior participação popular das décadas mais recentes. Conforme o professor de gestão de políticas públicas da USP, Pablo Ortellado, calcula-se que em torno de 12% da população brasileira participaram dos protestos daquele mês de junho. O docente, que é filósofo e também pesquisa o debate político via mídias digitais, avalia que é difícil saber com exatidão as causas da intensificação dos protestos naquele período. As manifestações iniciaram pela redução do preço da passagem de ônibus em São Paulo, mas acabaram se espalhando pelo país, abarcando dezenas de outras pautas.

Ortellado classifica em dois eixos principais as reivindicações que levaram à população às ruas: por direitos sociais e contra a corrupção institucionalizada. O professor, que também é articulista do jornal ‘Folha de São Paulo’, participou da 75ª edição do Cultura na Sedufsm, cujo tema foi “Jornadas de junho, cinco anos depois. Como estão as ruas?”. Na mesa, ao lado dele, o jornalista porto-alegrense, editor do site ‘Jornalismo B’, Alexandre Haubrich, e a professora de Comunicação Social da UFSM, Liliane Brignol, que coordenou a discussão.

Uma das principais consequências das manifestações de 2013, conforme avaliação de Pablo Ortellado, é o abalo causado ao sistema político, que atingiu todas as cores partidárias. Segundo ele, o levante da sociedade contra o Estado impactou de tal forma, que governantes das três esferas de poder perderam algo em torno de 20% de apoio popular. Entretanto, o fenômeno relevante é que o tema da corrupção, que apareceu fortemente nas manifestações, não é abraçado pelos partidos políticos naquele ano. Todavia, após a vitória apertada de Dilma Rousseff e a ascensão da Operação Lava Jato, atingindo membros importantes do governo federal, os setores mais à direita acabam por se apropriar da bandeira da luta contra a corrupção, associando a prática ao petismo.

Desde então, conforme avaliação de Ortellado, vivemos um clima de polarização política, construída por narrativas antagônicas que não permitem meio termo. Para setores mais à direita, ser petista (ou de esquerda, pois a esquerda é entendida como petista) é compactuar com o roubo aos cofres públicos, com a corrupção. Conforme essa narrativa, não importa se houve avanços sociais nos governos do PT. Rechaçar a corrupção significa rechaçar qualquer pauta petista ou de esquerda.

Por outro lado, argumenta o filósofo, para a narrativa construída pelo petismo, a bandeira dos que se levantam contra a corrupção é sempre conservadora e carrega um viés golpista. São narrativas que não dialogam entre si e representam a negação de si mesmas. Ortellado, que fez pesquisa tanto junto a manifestantes que queriam o impeachment de Dilma Rousseff, quanto de protestantes que defendiam o PT, percebe que fora da narrativa discursiva que foi construída, há possibilidade de diálogo. Apesar de rechaçarem os governos petistas, boa parte dos manifestantes não defendiam pautas contra as mulheres, por exemplo. De outra parte, manifestantes em defesa de Lula, não negavam a importância da luta contra a corrupção. O que ocorre, muitas vezes, explica ele, é que pautas que defendem direitos das mulheres são associadas a pautas feministas, e feminismo é visto como uma orientação expressamente de partidos de esquerda.

Esquerda descaracterizada

No espaço destinado aos debates, Pablo Ortellado foi questionado sobre a questão do PT e a pauta da esquerda. Algumas manifestações do público criticaram a o que seria “traição” petista, que no governo teria desenvolvido práticas neoliberais. Para o professor não houve traição. Na análise feita por ele é fato que a esquerda está “sem identidade própria” e não apenas aqui no Brasil. Para Ortellado, o pano de fundo é a crise fiscal do Estado, pois nesse contexto, a esquerda não consegue oferecer mais direitos, como sempre foi a sua razão de existir. Ao não conseguir ampliar direitos para a população, na medida em que há limites financeiros nos marcos do Capitalismo, a esquerda vai se descaracterizando e ficando parecida com a direita.

Gatilhos

“Temos de abandonar a ideia de espontaneidade dos movimentos sociais, pois eles não ocorrem de uma hora para outra, há gatilhos que os acionam”. Foi assim que o jornalista porto-alegrense editor do site ‘Jornalismo B’, Alexandre Haubrich, iniciou sua fala no debate desta segunda. Embora as jornadas de junho possam ter parecido, a olhos despercebidos, um grande movimento espontâneo, o debatedor elenca uma série de fatores que acometiam a conjuntura política do país – e, mais especificamente, da cidade de Porto Alegre, e podem explicar o ascenso das ruas há cinco anos.

Um dos primeiros elementos trazidos por Haubrich, que também atua como assessor de imprensa do Sintrajufe/RS, foi a mobilização pela redução da tarifa do transporte público na capital gaúcha. Ele conta que, no início de março de 2013, o aumento do preço da passagem aumentou, o que gerou grande mobilização na cidade, já lotada de estudantes por ser início de semestre.

Enquanto as mobilizações de rua aconteciam, os vereadores Fernanda Melchiona e Pedro Ruas (ambos Psol) atuavam na via parlamentar, protocolando ações em defesa da revogação do aumento da tarifa. No dia 4 de abril daquele ano, a revogação aconteceu. E Porto Alegre, na avaliação de Haubrich, passou a servir de exemplo para outras cidades e estados do país, que engrossaram suas manifestações pelo direito à cidade – significando, dentre outras coisas, a negação das altas tarifas para acessar o transporte público. Grandes protestos ganharam cidades como Vitória (ES) e São Paulo (SP).

Voltando um pouquinho no tempo, o editor do ‘Jornalismo B’ também destaca o episódio do ‘Tatu Bola’, em 2012, quando manifestantes foram duramente reprimidos pela Brigada Militar após tentarem ‘ferir’ o tatu – grande mascote inflável da Copa de 2014, fincado no Largo Glênio Peres. A pauta do protesto era o repúdio à privatização de espaços públicos, já que Porto Alegre, escolhida como uma das cidades-sede dos jogos, intensificava seu processo de higienização social. Após a repressão, diversos setores da capital gaúcha demonstraram indignação com a truculência policial e se organizaram num movimento chamado “Defesa pública da alegria”. O território parecia estar sendo preparado para as jornadas.

Portas abertas

Para Haubrich, 2013 não admite olhares maniqueístas. Dos movimentos que iniciaram, em todo o país, reivindicando a redução das tarifas (e, em certos locais, até mesmo o passe livre), e depois se abriram para uma grande diversidade de pautas e setores, o jornalista diz podermos tirar pontos positivos e negativos. Há cinco anos, em sua visão, muitas portas foram abertas, tanto para a direita quanto para a esquerda.

Como avanço, ele cita a horizontalidade dos movimentos sociais, dando o exemplo de assembleias organizadas pelo Bloco de Lutas Porto Alegre, em que todos tinham direito à expressão. Como influência direta das jornadas de junho, ele cita também as ocupações dos estudantes secundaristas, em 2016, contra a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 55 – do Teto de Gastos – e o projeto da Escola sem Partido. As ocupações nas escolas – seguidas de ocupações em universidades – foram, para Haubrich, fortemente referenciadas nos modos horizontais e democráticos construídos em 2013. Concomitantemente, lembra o jornalista, as mulheres brasileiras se organizavam para resistir aos projetos de Eduardo Cunha, então presidente da Câmara dos Deputados, que propunha, dentre outras questões, criminalizar, ainda mais, a prática do aborto no país.

Desde que o Dieese começou a contabilizar (em 1983), 2013 foi o ano com o maior número de greves até então no Brasil, registrando mais de dois mil movimentos paredistas. Contudo, se as jornadas de junho fizeram avançar a consciência e as formas de luta, também abriram portas aos setores mais conservadores da sociedade brasileira. “As ruas passaram a ser não só da esquerda. Os cantos e cartazes começaram a mudar. A direita conseguiu o que queria: retirar direitos e esvaziar as ruas. Mas acho que esse esvaziamento não permanecerá por muito tempo”, avalia Haubrich, para quem o caso Marielle Franco é exemplo das portas duplamente abertas: ao mesmo tempo em que a parlamentar mulher, negra, lésbica e de periferia foi assassinada por motivos de ódio, as mobilizações em repúdio à sua execução demonstraram grande solidariedade e capacidade de luta.

“2013 não tem uma resposta absoluta. É mais um ano que não acabou. Nosso maior desafio, hoje, é dar organicidade às mobilizações e abraçar novas formas de luta propostas pelos novos movimentos sociais”, conclui o jornalista.

Lançamento de livros           

Após o debate, Alexandre Haubrich participou de uma sessão de autógrafos de seus livros intitulados ‘Nada será como antes: 2013, o ano que não acabou, na cidade onde tudo começou’, recém-lançado pela editora Libretos, e ‘Mídias Alternativas: a palavra da rebeldia’, lançado em 2017 pela editoria Insular.

Texto: Bruna Homrich e Fritz Nunes

Fotos: Rafael Balbueno

Assessoria de Imprensa da Sedufsm

 



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