Notícias

04/10/2018   04/10/2018 17h44 | A+ A- | 418 visualizações

Ninguém imaginaria o fascismo em nosso círculo familiar, diz professor

Cientista político da UFSM, Dejalma Cremonese analisa cenário às vésperas das eleições


Cremonese: independente do resultado das eleições, o 'terceiro turno' deve ocorrer

O candidato do PSL à Presidência da República, Jair Messias Bolsonaro, parece teflon, ou seja, nada “cola” nele. A avaliação é do cientista político Dejalma Cremonese, professor do departamento de Ciências Sociais da UFSM. Para o docente, seriam várias as causas para o fato de acusações como racista, homofóbico e machista, não estarem colando nele. Um desses aspectos é a crise econômica, destaca Cremonese. “Boa parte dos eleitores espera algo novo para resolver a parada, um salvador da pátria, numa mescla de sebastianismo e populismo autoritário”, analisa o professor, em entrevista à assessoria de imprensa da Sedufsm.

Dentre as outras características que têm feito a candidatura de Bolsonaro manter-se à frente de todos os demais, no entendimento do cientista político, estão o sentimento anti-PT e a “conjugação do próprio racismo e ódio que cada ser humano carrega dentro de si e que até pouco tempo atrás era velado.” Para Cremonese, agora todos têm prazer de demonstrar o que cada um realmente pensa. “Ninguém imagina que o fascismo poderia estar em nosso círculo familiar e na roda de amigos”, constata o professor.

O cientista político também entende que, nesta eleição, a disputa não será mais, a exemplo do que tem ocorrido desde 1994 para cá, entre PT e PSDB, mas entre o PT e Bolsonaro. Para ele, o PSDB está fora do páreo, e paga o preço de não ter aceitado o resultado das eleições de 2014, com Aécio Neves questionando a vitória de Dilma Rousseff, e depois se aliando a Michel Temer na derrubada da ex-presidente, em 2016.

PT paga preço sem novas lideranças

Dejalma Cremonese concorda com o ponto de vista de que o candidato petista, Fernando Haddad, cresceu bastante no gosto popular e pode chegar ao segundo turno, por influência da popularidade do ex-presidente Lula. Destaca o docente que, neste momento, a proximidade com Lula é boa, mas, que, em caso de vitória, Haddad deveria começar a imprimir o seu modo próprio de governar. Para Cremonese, “o PT também está pagando um alto preço por não ter formado novas lideranças políticas.”

Momento de extremo perigo

Na análise do professor da UFSM, a vitória de Jair Bolsonaro representa, sim, um risco para a democracia. “O momento é de extremo perigo. Nada nos garante que, se eleito, Bolsonaro não faça um governo misto civil/militar impondo uma linha dura na forma de administrar. Isso seria um golpe mortal para a nossa frágil e incipiente democracia”, frisa Cremonese.

Terceiro turno

No caso de ocorrer a vitória do candidato petista, Fernando Haddad, qual o cenário que se pode prever? Para Dejalma Cremonese, esse é “o outro lado que inspira cuidados”. Nada garante, segundo o professor, que com a vitória de Haddad, um novo governo petista teria governabilidade. “Acredito que, independentemente do resultado das eleições, o terceiro turno se faça presente novamente”, diz o cientista político.

Acompanhe a seguir a íntegra das perguntas e das respostas do professor Dejalma Cremonese, que falou ainda sobre temas como a discrepância das pesquisas de opinião relativa ao processo eleitoral. Nesta sexta, publicaremos uma outra entrevista, com questões semelhantes, do cientista político e professor da UFSM, Cleber Martins.

Sedufsm- Entrando na reta final da eleição presidencial, começam a surgir contradições nas pesquisas eleitorais. Ibope e Datafolha, no início desta semana, deram Bolsonaro crescendo e aumentando a margem em relação à Haddad. Um outro instituto, que pesquisou para a Rede Record, apontou distância menor. E no domingo, a pesquisa da CNT/MDA dava empate técnico. É comum esse tipo de diferença? É possível que haja manipulação em pesquisas?

Cremonese- As pesquisas são sempre a fotografia de um momento. Assistimos nesta campanha várias ondas de crescimento dos candidatos. Primeiramente a onda Bolsonaro já se colocando acima dos 20% das intenções de voto. Depois tivemos a onda da ascensão de Haddad – logo após a definição do PT em lançá-lo. Mais recentemente. Temos mais uma onda de Bolsonaro que atinge 32% das intenções de voto. Haddad permanece com 23% contra 12% de Ciro que aparece em terceiro. A tamanha diferença entre as pequisas talvez possa estar na metodologia utilizada, por isso a discrepância entre elas.

Sedufsm- É possível entender como corretas as análises de que vivemos uma polarização na eleição, a partir dos dados de que estão bem na frente nas pesquisas os candidatos Bolsonaro e Haddad?

Cremonese- Me parece que a polarização nesta eleição dar-se-á de forma diferente. Desde 1994, 1998, 2002, 2006, 2010 e 2014 a polarização dava-se entre PT e PSDB. Agora, tudo leva a crer que PSDB esteja fora do páreo. Triste fim de um partido que errou muito: não aceitou os resultados das eleições 2014, apoiou o golpe, fez-se governo com Michel Temer e agora paga o preço. O eleitor não perdoa. Acredito que a polarização fique agora entre as forças mais progressistas, capitaneado pelo PT e de outro, na figura de Bolsonaro e seu partido, o PSL.

Sedufsm- Por que as acusações contra o candidato Bolsonaro, seguida de evidências, sobre ser ele machista, racista, homofóbico, parecem não enfraquecê-lo politicamente?

Cremonese- Verdade. Parece efeito teflon. Nenhuma acusação cola. Todos sabemos que Bolsonaro é machista, racista e homofóbico. Mesmo assim, aparece bem colocado nas pesquisas. São muitas as razões para tal “êxito” até aqui. Primeiro o momento de instabilidade econômica que passa o país. Boa parte dos eleitores espera algo “novo” para resolver a parada. Tipo um “salvador da pátria”, uma mescla de sebastianismo e populismo autoritário; segundo, um forte sentimento anti-PT; terceiro, a conjugação do próprio racismo e ódio que cada ser humano carrega dentro de si que até pouco tempo atrás era velado. Agora todos têm prazer de demonstrar o que cada um realmente pensa. Ninguém imagina que o fascismo poderia estar em nosso círculo familiar e na roda de amigos.

Sedufsm- Na sua avaliação, a candidatura de Haddad cresceu bastante por ser uma extensão do ex-presidente Lula, ou ela tem peculiaridades que a tornam uma candidatura competitiva?

Cremonese- Sim, Haddad cresce como extensão do ex-presidente Lula. Para o bem ou para o mal, Lula representou e representa a grande liderança política do Brasil dos últimos tempos. Arrisco dizer que Lula seja o maior líder já visto no Brasil. Neste momento, seria bom a proximidade com Lula, mas, se caso vier a vencer as eleições, Haddad deveria começar a imprimir o seu modo próprio de governar. O PT também está pagando um alto preço por não ter formado novas lideranças políticas.

Sedufsm- Podemos, realmente, temer pela democracia a partir da eleição de uma chapa como a de Jair Bolsonaro e seu vice, Hamilton Mourão?

Cremonese- Sim. O momento é de extremo perigo. Nada nos garante que, se eleito, Bolsonaro não faça um governo misto civil/militar impondo uma linha dura na forma de administrar. Isso seria um golpe mortal para a nossa frágil e incipiente democracia. Tempos ainda mais difíceis nos aguardam.

Sedufsm- No caso de vitória do PT, que certamente continuará enfrentando problemas como os rescaldos da Lava Jato, além do sentimento antipetista ainda bastante forte, é possível que Haddad enfrente um processo de resistência parecido com o enfrentado por Dilma Rousseff?

Cremonese- Esse é o outro lado que inspira cuidados. Nada me garante que, com a vitória de Haddad um novo governo petista teria governabilidade. Acredito que, independentemente do resultado das eleições, o terceiro turno se faça presente novamente. Volto a afirmar: o momento político atinge seu ápice de instabilidade.
 

Entrevista: Fritz R. Nunes

Foto: Arquivo/Sedufsm

Assessoria de imprensa da Sedufsm



Fotos



* Clique na foto para Ampliar!


Compartilhe com sua rede social!














© 2018 SEDUFSM
Rua André Marques, 665 - Centro, Santa Maria, RS - 97010-041
Website por BM2 Tecnologia em Internet