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05/10/2018   05/10/2018 17h14 | A+ A- | 221 visualizações

Professor vê dificuldade para estabilidade política, mesmo após eleição

Cleber Martins, cientista político da UFSM, vislumbra percalços na economia e na governabilidade


Martins: é preciso definir marcos de uma repactuação da relação entre Executivo, Judiciário e Legislativo

Quem se eleger a Presidente se deparará com uma série de situações difíceis. Além das questões econômicas, como equilibrar a economia, fazer com que o país volte a crescer e se desenvolver, retomando o poder de compra do salário, etc., há o problema da governabilidade. Esse é o cenário complexo que será herdado pelo próximo Presidente da República, avalia o cientista político Cleber Martins, professor do departamento de Ciências Sociais da UFSM. Ele respondeu uma série de questões sobre o cenário nacional à assessoria de imprensa da Sedufsm, dando sequência à primeira entrevista publicada na última quinta, com o professor Dejalma Cremonese, também do departamento de Ciências Sociais da UFSM.

Para o docente, no que se refere à relação entre o governo e a sociedade, será preciso restabelecer algum nível de representação política e de legitimidade à presidência da República, considerando o necessário reconhecimento do processo democrático e de suas características, reconectando a sociedade e o governo. Um outro ponto destacado por Martins é a relevância de definir os marcos de uma repactuação da relação entre os três poderes: Executivo, Judiciário e Legislativo. Do jeito que está, analisa ele, com a centralidade do Judiciário em vários temas, alguns alheios a suas atribuições constitucionais, e com o Legislativo operando como um obstáculo à governabilidade, vai ser difícil qualquer projeto de estabilidade política vingar.

Coesão social em apoio a Bolsonaro

Questionado sobre o motivo de que, apesar das diversas críticas e movimentos que repelem o candidato Jair Bolsonaro, como o #Elenão, a candidatura não arrefeceu, e ainda ganhou corpo, Cleber Martins responde que há uma construção social representativa que impele a liderança do pequeno PSL. Na análise do professor, a candidatura de Bolsonaro vem aglutinando, já há bastante tempo, os segmentos sociais descontentes com a política em si e envolve grupos diversos por estratificação social (renda, escolaridade, etc.). Em geral, diz ele, segmentos com caráter conservador e reacionário. Essa coesão, destaca Martins, agora consubstanciada no sentido eleitoral, tem relação com vários processos sociais e políticos, como por exemplo, com parte dos protestos de junho de 2013 e de 2015, que culminaram com a destituição da presidente Dilma Rousseff.

Quando perguntado sobre se há riscos à democracia a partir da vitória de Jair Bolsonaro, o professor de Ciência Política diz “é difícil prever qualquer situação a partir da vitória, se ocorrer, da chapa Bolsonaro-Mourão”.

Efeito Lula e a imagem de equilíbrio de Haddad

Uma outra questão feita ao professor da UFSM é quanto ao crescimento de Fernando Haddad (PT), nas intenções de voto, tendo em vista que foi o último candidato a ser oficializado. Para Martins, “a candidatura de Haddad cresceu, principalmente, como efeito da liderança de Lula, de uma certa nostalgia do governo Lula, da estratégia de indicação da candidatura e também por causa do Partido dos Trabalhadores, o qual possui o mais alto índice de identificação partidária”. Ele ressalta, ainda, as características de Haddad, que passaria uma “imagem de equilíbrio”.

Acompanhe, a seguir, a íntegra das perguntas feitas pela assessoria de imprensa da Sedufsm, bem como as respostas do professor Cleber Martins. Além dos temas assinalados acima, o cientista político abordou outras questões como a polarização entre o PT e Bolsonaro e a discrepância entre as pesquisas eleitorais.

Sedufsm- Entrando na reta final da eleição presidencial, começam a surgir contradições nas pesquisas eleitorais. Ibope e Datafolha, no início da semana, davam Bolsonaro crescendo e aumentando a margem em relação à Haddad. Um outro instituto, que pesquisou para a Record, deu distância menor. E uma outra pesquisa, da CNT/MDA, dava empate técnico. É comum esse tipo de diferença? É possível que haja manipulação em pesquisas?

Martins- As pesquisas eleitorais, a princípio, podem se diferenciar pelo tipo de cálculo amostral e, entre outros fatores, pela forma e momento nos quais são realizadas. É claro que podem existir pesquisas com viés, no sentido de favorecer/desfavorecer a candidaturas. Entretanto, a característica mais essencial das pesquisas está na captura do momento, não se tratando de uma projeção. Ou seja, séries de pesquisas podem gerar tendências, mas, não representam uma profecia relativa ao resultado. Existem muitas variáveis que podem influenciar o eleitorado.

Sedufsm- É possível entender como corretas as análises de que vivemos uma polarização na eleição, a partir dos dados de que estão à frente nas pesquisas os candidatos Bolsonaro e Haddad?

Martins- A eleição presidencial de 2018 tem se caracterizado com uma tendência, demonstrada pelas pesquisas de intenção de voto, nas candidaturas Haddad e Bolsonaro. Em eleições anteriores, pode-se constatar uma competitividade maior pela segunda vaga no segundo turno. Na atual, até agora, há uma distância bastante considerável entre o segundo e o terceiro colocado, o que não impede algum tipo de aproximação do candidato Ciro Gomes. De qualquer forma, a ideia de polarização, enquanto expressão de um conceito,  precisa de aprofundamento e mais discussão teórica. Existem muitos dualismos nas análises sobre o processo eleitoral: petismo e anti-petismo, lulismo e anti-lulismo, antifascismo e bolsonarismo, etc. Contexto que gera a impressão da existência de dois polos em disputa. Entretanto, é cedo para afirmar que a polarização exista, no sentido estrito do termo, como algo mais enraizado e permanente, e que se traduza em agrupamentos eleitorais e partidários mais sedimentados. O que está acontecendo, a disputa mais acirrada entre as duas candidaturas e seus grupos de apoio, por exemplo, não se observa da mesma forma nas eleições estaduais. Desde a eleição presidencial de 1989, com uma ou outra exceção, a disputa, no seu caráter mais competitivo, se deu entre dois ou três grupos políticos, seja no primeiro turno, seja, situação já previsível, no segundo turno.

Sedufsm- Por que as acusações contra o candidato Bolsonaro, seguida de evidências, sobre ser ele machista, racista, homofóbico, parecem não enfraquecê-lo politicamente?

Martins- A candidatura de Bolsonaro vem aglutinando, já há bastante tempo, os segmentos sociais descontentes com a política em si e envolve grupos diversos por estratificação social (renda, escolaridade, etc.) e, em geral, com caráter conservador e reacionário. Essa coesão, agora consubstanciada no sentido eleitoral, tem relação com vários processos sociais e políticos, como por exemplo, com parte dos protestos de junho de 2013 e de 2015, que culminaram com a destituição da presidente Dilma Rousseff. Se estabelece, portanto, uma consolidação que tem caráter moral (os cidadãos/ãs de bem), em parte religioso, capaz de agregar desde segmentos sociais saudosos de um governo com capacidade mais incisiva de impor ordem política, até setores empresariais de caráter mais liberal. Sendo assim, a postura e as manifestações do candidato e seus apoiadores/as reforçam a ideia de que há um “nós contra eles”, com forte aspecto moralista e com grau alto de despolitização, aqui entendida como processos de convivência entre grupos diversos. A despolitização está na imposição de uma visão de mundo dissociada de elementos básicos da sociedade, como diversidade social, de gênero, etc. Contexto que produz como efeito um fortalecimento da ideia de que nada atinge Bolsonaro.

Sedufsm- Na sua avaliação, a candidatura de Fernando Haddad cresceu bastante por ser uma extensão do ex-presidente Lula, ou ela tem peculiaridades que a tornam uma candidatura competitiva?

Martins- A candidatura Haddad cresceu, principalmente, como efeito da liderança de Lula, de uma certa nostalgia do governo Lula, da estratégia de indicação da candidatura e também por causa do Partido dos Trabalhadores, o qual possui o mais alto índice de identificação partidária. Há, ainda, as características de Haddad, com uma imagem de equilíbrio.

Sedufsm- Podemos, realmente, temer pela democracia a partir da eleição de uma chapa como a de Jair Bolsonaro e seu vice, Hamilton Mourão?

Martins- É difícil prever qualquer situação a partir da vitória, se ocorrer, da chapa Bolsonaro-Mourão.

Sedufsm- No caso de vitória do PT, que certamente continuará enfrentando problemas como os rescaldos da Lava Jato, além do sentimento antipetista ainda bastante forte, é possível que Haddad enfrente um processo de resistência parecido com o enfrentado por Dilma Rousseff?

Martins- Quem se eleger presidente se deparará com uma série de situações difíceis. Além das questões econômicas, como equilibrar a economia, fazer com que o país volte a crescer e se desenvolver, retomando o poder de compra do salário, etc., há o problema da governabilidade. É preciso ter maioria no Congresso para governar e, quando essa maioria não vem das urnas, é necessário construí-la a partir de negociações, compartilhando e formando o governo, situação que pode ser um enquadramento e uma limitação das ações do/a eleito/a. Outros dois pontos são essenciais aqui. O primeiro é a relação do novo governo com a sociedade. É preciso restabelecer algum nível de representação política e de legitimidade à presidência da República, considerando o necessário reconhecimento do processo democrático e de suas características, reconectando a sociedade e o governo (mesmo que grande parte se oponha ao governo). Problema altamente complexo e de muito difícil resolução. O outro ponto é definir os marcos de uma repactuação da relação entre os três poderes, Executivo, Judiciário e Legislativo. Do jeito que está, com a centralidade do Judiciário em vários temas, alguns alheios a suas atribuições constitucionais, e com o Legislativo operando como um obstáculo à governabilidade, vai ser difícil qualquer projeto de estabilidade política equilibrado com o processo de tomada de decisões políticas.

Entrevista e edição: Fritz R. Nunes

Foto: Arquivo/Sedufsm

Assessoria de imprensa da Sedufsm

 



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