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18/12/2018   18/12/2018 19h09 | A+ A- | 106 visualizações

Chileno relata contaminação ambiental e casos de câncer por efeito da mineração

Representante de comissão de Antofagasta alerta para evitar situação parecida no RS


Ricardo Cortés: de que adianta ter emprego se não tiver vida?

A cidade de Antofagasta, no Chile, ficou muito famosa no final dos anos 80 quando dos debates para a criação do Mercosul. Região portuária, ela serviria de corredor de exportação para produtos do mercado comum do cone sul. Na última sexta, 14, durante o II Seminário sobre impactos de projetos de mineração, promovido pelo GTPAUA/ANDES-SN, em Rio Grande, aquela região foi lembrada por outros motivos. E nada alentadores. Ricardo Díaz Cortés, professor e, também, presidente da Comissão de Saúde e Meio Ambiente do município, participou da mesa “impactos da mineração em regiões portuárias”, e fez relatos a respeito do alto de grau de contaminação tóxica no solo, no ar e na água da região, em função do uso do porto para exportação de concentrado de cobre, extraído através da mineração.

Conforme Cortés, os níveis de contaminação são tão graves, que colocam a região como a de maior incidência de casos de câncer, quando comparada com outras localidades daquele país. Para o chileno, a situação sobre os efeitos da mineração é tão séria que, na opinião dele, a população de Rio Grande deveria estar em peso no debate. Segundo o presidente da comissão de Antofagasta, há um discurso que procura colocar em destaque a relação direta entre mineração e geração de emprego e riqueza. No entendimento de Cortés, a pergunta que todos deveriam responder é: de que adianta ter emprego, dinheiro, carro novo, se não tiver vida?

Sobre o caso da contaminação e das doenças resultantes disso, o chileno afirma que as empresas de mineração jamais admitem e jogam a culpa em terceiros, como por exemplo, de que a origem dessa contaminação seria o deserto do Atacama. Ricardo Cortés enfatiza que não faltam recursos para essas empresas comprarem laudos ou pessoas que atestem a idoneidade delas. Durante o debate foram lembrados casos de empresas de mineração que financiam compras de equipamentos e laboratórios em universidades chilenas.

Tragédias e silenciamentos

Quando se fala nos efeitos perniciosos dos projetos de mineração, inclusive diante de fatos como a tragédia social, humana e ambiental, que foi o rompimento de uma barragem da Samarco, em Minas Gerais, com a morte de 19 pessoas, no final das contas, o que se percebe é um silenciamento. A mídia comercial, por exemplo, acaba por deixar cair no esquecimento. Para Geovani Teixeira, do Sindicato dos Trabalhadores da Empresa de Água e Saneamento do RS (Sindiagua), existem causas que explicam esse silêncio midiático.

Segundo ele, a dona da Samarco é a Vale, que possui uma associação com a Bradespar, que é uma construção do grupo Bradesco com a Globobar (Rede Globo). Portanto, diz Teixeira, dificilmente os veículos das organizações Globo abordarão, por exemplo, reportagens mostrando o alto nível de contaminação da água e do solo na região de Barcarena (PA). Ele lembra, ainda, que uma das empresas que explora mineração na região, a Hidro Alunorte, é apenas uma testa de ferro de multinacionais.

Além disso, há o viés político, lembrado pelo sindicalista. Geovani Teixeira destacou que as empresas de mineração sempre foram grandes financiadoras de campanhas políticas. Ele citou que, na campanha anterior, o candidato vencedor ao governador gaúcho, José Sartori (MDB), recebeu doações de empresas que atuam na exploração de minérios. Já no governo, o eleito abriu linha de crédito para financiar projetos dessas empresas, por exemplo, em Candiota.

Como a mineração rebate em nossa vida?

Diante dos cenários apresentados, com depoimentos mostrando a gravidade do que significa a implementação de projetos de mineração, com seus efeitos nefastos ao ambiente e às populações, o outro participante da mesa, professor área de Sociologia do Instituto de Ciências Humanas e da Informação (ICHI) e do programa de pós-graduação em educação ambiental da Universidade de Rio Grande (Furg) questionou: como isso rebate em nossas vidas?

O questionamento se dá em cima de dados muito concretos: existem, segundo Barcellos, 162 empreendimentos solicitando licença para explorar a mineração no Rio Grande do Sul. Desses, três apenas na região da chamada metade sul do RS. Assim como Antofagasta, aqui no estado o porto de Rio Grande seria o grande canal para que desaguassem os minérios de extraídos de localidades como Lavras do Sul e São José do Norte. Ao longo de duas décadas, o cálculo é que 40 caminhões transitariam ao dia entre Lavras do Sul e Rio Grande transportando produtos tóxicos como o chumbo.

Quando Sérgio Barcellos faz o questionamento sobre de que forma toda essa questão da mineração impacta na vida das pessoas, ela usa dados do plano nacional de mineração, de 2011, e dos planos estaduais de mineração, que preveem que a economia do país passe a ter uma participação intensa do setor de exploração de minérios. Hoje, segundo o professor, a mineração representa 1.6% do Produto Interno Bruto (PIB). O que se projeta no plano de mineração é que esse percentual salte para 20% do PIB. No Chile e na Bolívia, diz ele, a fatia ad mineração ocupa quase 50% do PIB. Portanto, diz ele, o que se avizinha, caso não haja resistência, é que venhamos a ser “reféns dessa atividade econômica”.

Texto e fotos: Fritz R. Nunes

Assessoria de imprensa da Sedufsm

 



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