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12/03/2019   12/03/2019 19h35 | A+ A- | 419 visualizações

Professor diz que discurso de Bolsonaro sobre forças armadas foi insano

Docente de Ciências Sociais da UFSM analisa papel histórico dos militares no país


Professor João Rodolpho: alguns analistas veem o presidente Bolsonaro como 'fantoche das elites'

A frase do presidente Jair Bolsonaro (PSL), na última quinta 7, afirmando que “democracia só existe se as Forças Armadas quiserem”, é resultado de sua formação mental insana, critica João Rodolpho Flôres, historiador e professor do departamento de Ciências Sociais da UFSM. Em entrevista à assessoria de imprensa da Sedufsm, o docente analisa que as tiradas e frases de efeito do Presidente da República, que têm causado estragos enormes na imagem interna e externa do país, apenas corroboram seu entendimento acadêmico de que sempre houve, por parte da baixa oficialidade do Exército, um despreparo histórico (e intencional).

Analisando especificamente a questão do Exército, João Rodolpho comenta que a grande maioria dos seus membros é formada no ensino básico, "especializando-se" nas brutalidades da "arte da guerra" e no "combate ao inimigo interno e externo vermelho". Acrescenta ainda que “a alta oficialidade não difere muito disso, mas seu poder de mando deriva-se do status de classe dirigente. Herança das famílias detentoras do latifúndio, dos velhos ‘coronéis’, que sempre se arvoraram donos e salvadores do Brasil.” Para o professor, isso se mantém até hoje. “A novidade foi a ascensão de um militar, outrora de péssimo exemplo na caserna, que conseguiu com um discurso imbecilizante o apoio surpreendente de tantos eleitores”, critica João Rodolpho Flôres.

Para o docente do departamento de Ciências Sociais, está mais que comprovado que Jair Bolsonaro “não tem preparo intelectual” para o cargo que ocupa. João Rodolpho simpatiza com alguns analistas que afirmam ser Bolsonaro “um fantoche das elites”. Entretanto, diz ele, “não imaginavam que o estrago seria tão grande”.  No que se refere ao Vice-Presidente, Hamilton Mourão, militar mais graduado (general hoje na reserva), o professor ressalta que “da mesma forma não tem preparo algum para o exercício do poder, ainda mais com a equipe pífia e vexatória de ministros que hoje formam o quadro de governo: gestão de caserna é muito diferente de gestão de Estado”, enfatiza.

Questionado sobre as justificativas do presidente Jair Bolsonaro e de assessores próximos sobre ter havido “má interpretação” em sua frase, o professor da UFSM foi incisivo: “sempre será mal interpretado, pois é um inepto intelectualmente”. Para João Rodolpho, “o máximo que (Bolsonaro) consegue fazer é dar recados de alguns projetos prometidos na campanha eleitoral, e assim mesmo cheio de erros e versões conflitantes.” E acrescenta: “Ele diz uma coisa e os ministros outra. Não foi possível combinar? Não planejaram? Não discutiram os principais pontos? Não articularam politicamente com membros do governo, técnicos e base de apoio? Buscaram orientação jurídica?”, questiona. E complementa: “o que vemos diariamente é um festival de horrores, com mandos, desmandos, desmentidos e retrocessos”.

Acompanhe, abaixo, a íntegra da entrevista com o professor do departamento de Ciências Sociais da UFSM, João Rodolpho Flôres. E, leia aqui também, a entrevista sobre o mesmo assunto, com o historiador e professor da UFSM, Gilvan Dockhorn.

Sedufsm- Como podemos interpretar essa fala do primeiro mandatário da nação? Significa que as instituições são reféns dos militares?

João Rodolpho - Esta é uma percepção típica, até mesmo comum noutros tempos, de uma parte menos intelectualizada (sim existe nos meios militares muita gente bem preparada intelectualmente) das Forças Armadas brasileiras, sobre os campos da política, especialmente em relação aos temas "governo" e "democracia". Na Marinha, desde o Império, herança lusitana, vamos ter os quadros melhor formados em termos de educação e especialização ao ofício militar. Depois, aparece a Aeronáutica, em função de sua participação na 2ª Guerra, com número mais restrito de contingentes, mas que necessita de pessoal treinado e preparado, inclusive com acesso aos meios do ensino superior. Já o Exército, que se constituiu como verdadeira corporação, e assim reconhecida publicamente, somente passou a ter destaque a partir do final da Guerra do Paraguai, juntamente com a inserção de parte de seus quadros na Maçonaria e no partidarismo republicanista (ideário positivista). Contudo, o alvorecer do Exército se dá apenas na década de 1930, com o advento Varguista. Daí em diante, como contraposição às organizações populares partidárias e sindicais, no campo e na cidade, valendo-se do bode expiatório do "comunismo internacional", os velhos tenentes da década de 20 ascendem ao poder com o Estado Novo e ganham status com a participação da FEB (Força Expedicionária) na guerra mundial.

Assim, a grande maioria dos seus membros é formada no ensino básico, "especializando-se" nas brutalidades da "arte da guerra" e no "combate ao inimigo interno e externo vermelho". Já a alta oficialidade não difere muito disso, mas seu poder de mando deriva-se do status de classe dirigente. Herança das famílias detentoras do latifúndio, dos velhos "coronéis" que sempre se arvoraram donos e salvadores do Brasil. Como bem sabemos, para sempre poderem manter os status quo de classe suprema dirigente. Isso se mantém até hoje. A novidade foi a ascensão de um militar, outrora de péssimo exemplo na caserna, que conseguiu com um discurso imbecilizante o apoio surpreendente de tantos eleitores. Aliás, um discurso em nome da moralização, o qual a cada dia de governo Bolsonaro se esvai pela contradição, pessoal, dos seus apoiadores e dos seus ministros.

O problema é que o sujeito não tem preparo intelectual algum, contudo ter sido útil, para alijar do poder governos que vinham trilhando, com muitos problemas como sabemos, uma rota de diminuição das distâncias sociais no Brasil, entre miseráveis e ricos extremamente abonados. Para alguns críticos hoje, Jair M. Bolsonaro foi e é apenas um fantoche para as elites. Porém, me parece que elas não imaginavam que o estrago seria tão grande, num curto espaço de tempo. E, convenhamos, o Sr. Mourão, militar mais graduado, da mesma forma não tem preparo algum para o exercício do poder, ainda mais com a equipe pífia e vexatória de ministros que hoje formam o quadro de governo. Gestão de Caserna é muito diferente de gestão de Estado.

Certamente, as elites brasileiras devem estar atordoadas, pois o plano A é um fiasco internacional. Já o plano B, no caso de um impeachment ou renúncia à la Jânio, é uma grande incerteza. Incerteza mesmo, porque o tempo é curtíssimo para colocar em prática as ditas "reformas", que mais uma vez somente punirão os menos aquinhoados.

Por fim, a questão das instituições se tornarem reféns nesta "concepção pífia de governo" nos leva a dois entendimentos. O primeiro diz respeito ao desejo de muitas pessoas desejarem isso, em nome de uma pretensa segurança, que na prática nunca existiu sem haver melhor distribuição de riquezas. É apenas uma sensação, onde o medo inibe as pessoas de bem, mas não neutraliza ações daqueles que praticam crimes (quais razões as levam a isso?). Outro ponto, bastante preocupante, que se tem demonstrado nos últimos meses é a atuação das diferentes esferas do poder Judiciário, que deixa-nos a impressão de ter sucumbido às pressões das elites brasileiras (mesmo sabendo-se que parte de seus membros são realmente oriundos delas), abrindo mão de sua isenção institucional e politizando suas decisões. Nesse sentido, espero que sim, os absurdos havidos no atual governo, com vasta repercussão interna e externa, leve o Judiciário a retomar uma trilha minimamente isenta, com respeito à Constituição e atento aos atos  ilegais praticados pelo Executivo e Legislativo.

Sedufsm- Como interpretar essa fala em um contexto de país que viveu 20 anos sob regime autoritário, comandando pelos militares?

João Rodolpho- Simplesmente porque é insana a formação mental desta pessoa, para não dizer mais, mal intencionada. O despreparo da baixa oficialidade é histórico e intencional. Sempre foi bucha de canhão na História. Mas, o preocupante mesmo é o saudosismo de muitos que apoiam o retorno destes tempos. Como se a solução aos problemas estruturais do Brasil fossem resolvidos por um regime de exceção política, e não por vias democráticas. Já tivemos experiências assim em 1930-32; 1935-37; 1937-45 e 1964-85, e elas não resolveram os problemas do país. Muito pelo contrário. Claro, ninguém é ingênuo para não perceber que esta é a estratégia da vaidosa, individualista e corrupta elite brasileira para manter seu status quo de eternos privilégios. É provado, nos poucos tempos que já tivemos, e da mesma forma por exemplos em vários outros países, até mesmo nos Estados Unidos (veja-se como eles resolveram a tragédia social e econômica da Crise de 1929), que a democracia é fundamental para que diferentes setores da sociedade possam participar ativa e efetivamente na produção de políticas públicas e equalização social, bem como na busca de justiça fiscal e priorização/controle de investimentos/gastos estatais, etc.

Pensar a solução dos problemas nacionais como "caso de polícia" é visão tacanha, que não podemos mais aceitar. Como sempre afirmo, a favela está lá porque de alguma forma ela foi gestada. Se tem problemas, deve-se compreender quais as razões disso. E sabemos como isso deve ser equacionado. É através da Educação, Saúde Pública, Geração de Trabalho e Renda e Políticas Públicas específicas. Portanto, inclusão. Infelizmente, o atual mandatário, seus familiares e determinados ministros, continuam a ver a realidade social como "caso de polícia". E a intenção, ao que demonstram, é permitir um extermínio sistemático destas populações, para garantir a segurança da classe média nacional, porque os ricos, atualmente, residem no exterior. A isso, da liberalização das ações policiais, incentivadas pelo próprio Presidente, somam-se outras questões preocupantes, como a cessação de direitos sociais, a miserabilidade impostas aos idosos com as reformas previdenciárias, combate às liberdades sexistas e sobre questões de gênero, etc.

Sedufsm- O vice, general Hamilton Mourão, afirmou que Bolsonaro foi mal interpretado. Na sua avaliação, cabe alguma outra interpretação da fala do Presidente?

João Rodolpho- Pelo visto será sempre mal interpretado, porque é um inepto intelectualmente. Daí, ser um zero em termos de gerenciar uma equipe de governo (pelos ministros escolhidos isso se comprova). O máximo que consegue fazer é dar recados de alguns projetos prometidos na campanha eleitoral, e assim mesmo cheio de erros e versões conflitantes. Ele diz uma coisa e os ministros outra. Não foi possível combinar? Não planejaram? Não discutiram os principais pontos? Não articularam politicamente com membros do governo, técnicos e base de apoio? Buscaram orientação jurídica? NADA DISSO PARECE ACONTECER. O que vemos diariamente é um festival de horrores, com mandos, desmandos, desmentidos e retrocessos. Por isso, tal governo é percebido internacionalmente como um verdadeiro FIASCO, tudo isso em apenas 65 dias. O que nos esperará nos próximos 1.395 dias?

DEMOCRACIA, tanto a antiga (bastante restrita em alguns estados no mundo ocidental), quanto a contemporânea, se afirmou e se consolidou a partir da mobilização popular. Os grandes exemplos foram na França liberal e na Rússia comunista, especialmente pelo papel decisivo desempenhado pelas mulheres, camponeses, soldados, pequenos burgueses e operários. Com o tempo, GOVERNO, JUSTIÇA, PARLAMENTO e FORÇAS ARMADAS acataram a vontade e as decisões populares, como instituições que existem para garantir a sedimentação do "campo democrático" (Pierre Bourdieu), cuja essência está na liberdade pública, direito de ir e vir, existência da propriedade individual ou coletiva, tolerância religiosa e garantias civis (contra quaisquer formas de intolerância).

Texto e foto: Fritz R. Nunes

Assessoria de imprensa da Sedufsm

 



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