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25/03/2019   25/03/2019 19h04 | A+ A- | 204 visualizações

Debatedoras pontuam especificidades do feminismo negro

Vera Oliveira e Sandra Aires participaram do 76º ‘Cultura na Sedufsm’


Evento ocorreu no Dia Internacional contra a Discriminação Racial

Enquanto as mulheres brancas saíam às ruas para reivindicar o direito ao trabalho, as negras já trabalhavam, muitas delas como empregadas domésticas dentro das casas das brancas que se punham a protestar. Quando as mulheres brancas de classe media debatiam-se contra o estereótipo de fragilidade e beleza, as negras já dividiam, ombro a ombro, o peso das tarefas laborais com seus companheiros. No momento em que o movimento sufragista tomava corpo, a senzala já havia, há muito, rebelado-se.

Tais constatações, longe de pretenderem valorar determinadas mobilizações, foram trazidas ao auditório Suze Scalcon da Sedufsm, na noite da última quinta-feira, 21 de março, para lembrar que o movimento feminista precisa ser sensível às especificidades das mulheres negras. E quem as trouxe foi Vera Rosane Oliveira, servidora aposentada da UFRGS e militante do Movimento Quilombo, Raça e Classe de Porto Alegre. Ela, ao lado da santa-mariense Sandra Aires, participou da 76ª edição do projeto Cultura na Sedufsm, que, desta vez, trouxe o tema ‘A luta das mulheres no combate ao racismo’.

“O machismo, se aliado ao racismo, traz requintes de crueldade”, observa Vera, para quem as opressões específicas [como gênero, raça, orientação sexual] estão a serviço da exploração de classe, ou seja, da apropriação do trabalho da classe trabalhadora. Quanto mais oprimido, mais explorável. Por isso mesmo, destaca a militante, é preciso não tratar o termo mulher como uma abstração, mas delimitar que a luta é das mulheres trabalhadoras.

Dados

Alguns dados trazidos por Vera dão conta de ilustrar a situação brasileira no que tange às desigualdades de raça, gênero e classe:

- Em 2014, dos 203,2 milhões de habitantes do país, 48,4% eram homens e 51,6% mulheres;

- Entre 2014 e 2016, 42,2% da população era branca, 46,7% parda e 8,2% preta. Isso quer dizer que 54,9% da população brasileira era/é constituída de pretos e pardos;

- No segundo trimestre de 2018, o Brasil contava com 13 milhões de desempregados, representando 12,4% da população economicamente ativa. 51% dos desempregados eram mulheres, 29,4% eram negros e pardos, e 26,6% jovens;

- Mulheres recebem 74,3% do rendimento dos homens;

- Negros recebem um terço do salário de brancos;

- O Brasil tem 14,4 milhões de analfabetos. Destes, 69,4% são negros.

Na avaliação de Vera, os dados mostram que as mulheres não estão plenamente integradas ao mercado de trabalho. “Recebemos salários mais baixos, ocupamos os piores postos de trabalho, somos as primeiras a sermos submetidas à terceirização”, pondera.

Reforma da Previdência

Visando a destacar a perversidade da Reforma da Previdência para as mulheres, Vera trouxe mais alguns dados:

- Mulheres pagam 44,3% das contribuições ao INSS, mas são apenas 33% das beneficiárias. Isso, para ela, explica-se pelo fato de as mulheres permanecerem menos tempo nos empregos e serem as primeiras a serem demitidas, muito devido à divisão sexual do trabalho que ainda as onera com o cuidado da casa e dos filhos;

- Mulheres recebem em media 20% do valor médio do benefício dos homens.

Violência

Outro grave problema que atinge as mulheres é a violência – e sua expressão mais perversa, o feminicídio [homicídio motivado por questões de gênero]. Vera lembrou que só nos primeiros 20 dias de janeiro deste ano, 120 feminicídios foram registrados no país. Isso sem levar em conta que, como comentou a palestrante, 60% das mulheres agredidas não procuram a justiça. “Uma mulher leva em media 10 anos para conseguir reagir às agressões”, complementa.

As diferenças entre mulheres brancas e negras também se fazem ver no quesito violência: enquanto o índice de feminicídios baixou 9,8% entre as mulheres brancas, aumentou 54% entre as negras.

“A luta contra a opressão é a luta contra o capitalismo, e esta deve ser feita de forma organizada”, encerra Vera, que, durante sua fala, lembrou os assassinatos de Marielle Franco, Cláudia Silva Ferreira [morta e arrastada pela Polícia Militar do Rio de Janeiro], Amarildo Dias de Souza [torturado e morto pela Polícia Militar do RJ] e Douglas da Silva Pereira [DG, também morto pela PM do RJ].

Silenciamento

Sandra Aires, militante do Movimento Negro Unificado de Santa Maria e do Fórum de Mulheres de Santa Maria, complementou a ideia de Vera sobre as diferentes trajetórias percorridas por mulheres brancas e negras, questionando: até quando seremos silenciadas?

“Quando a/o negra/o abre a boca e fala mais alto, é chamada/o de revoltada/o. Quando cultua e tem orgulho de sua ancestralidade, falam que é mimimi. Nossos passos vêm de longe. Nossas famílias são matricentradas. A figura da mulher tem destaque nas famílias negras, pois a mulher é a rainha da ancestralidade”, conta Sandra.

Para ela, quando uma mulher negra ocupa um espaço de poder e representatividade, além de estar empoderando a si mesma, também motiva outras mulheres. “As mulheres negras têm de ser sujeitos ativos e protagonistas. É preciso fazermos o recorte de gênero, raça e classe dentro do feminismo”, frisa.

Uma das preocupações de Sandra é o fomento ao debate sobre negritude nas escolas, tendo em vista a importância de os jovens construírem sua identidade e pertença à cultura negra. Outro aspecto bastante salientado pela militante do Movimento Negro Unificado foi a criminalização das religiões de matriz africana, muitas vezes impedidas de professar sua fé. “Oxum me inspira todos os dias”, diz, em referência à orixá Oxum, “a única mulher que senta entre os homens e decide sobre o mundo”.

Pelo viés do Ocidente

“Quando eu falo ‘mulher’, vocês fecham os olhos e enxergam uma mulher branca e de classe media. Agora, se eu falo ‘mulher negra’, vocês enxergam uma cidadã de segunda classe. O corpo da mulher negra é extremamente sexualizado. A mulata é mucama, a negra doméstica é explorada, a mãe preta ou ama de leite é passiva, servil”, reflete Sandra, explicando que essas categorizações acerca da mulher negra são fruto do pensamento ocidental.

Hoje, Sandra é a primeira e a única mulher negra a cursar pós-graduação no curso de Gerontologia da UFSM. Mas espera não ser a última, e por isso destacou, durante toda a sua fala, a importância das políticas de permanência aos estudantes negros da universidade.

Dia Internacional contra a Discriminação Racial

A 76ª edição do projeto ‘Cultura na Sedufsm’ ocorreu no Dia Internacional contra a Discriminação Racial, instituído pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 21 de março de 1960. A data faz referência ao massacre efetuado por tropas militares do Apartheid contra pessoas que se manifestavam em contrariedade à ‘lei do passe’ em Joanesburgo [África do Sul]. A lei do passe obrigava negros/as a usarem identificações que limitavam os locais por onde eles poderiam andar na cidade.

 

Texto: Bruna Homrich

Fotos: Fritz Nunes

Assessoria de Imprensa da Sedufsm

 



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